Episódio 9: HELIPORTO 

-Casa dos Wordgann, Wingstonn, 23/10/2015, 22h35min-

Anderson e Guilherme bloquearam a porta de entrada com tudo o que podiam: sofás, estante, televisores, mesas, cadeiras. Para passar por ali, somente se um batalhão de zumbis empurrasse a porta. Mas era exatamente um batalhão daquelas criaturas que estava lá fora. Estella já estava um pouco melhor, o tiro foi, realmente, de raspão. Ainda sangrava um pouco, mas não doía mais. Raquel, a moça que não parava de rezar, olhava para irmã, que estava com uma roupa muito provocante, e rezava ainda mais. Ketlyn e Mattheus foram na garagem, procurar a chave do fusca. Estava muito escuro lá, e não havia nenhuma fonte de energia para acender uma lâmpada sequer.
- Mattheus, enquanto eu procuro deste lado, você procura perto daquele armário, ok? A chave não deve estar tão escondida. - Ketlyn falava o que fazer. Raquel havia dito que a chave estava na garagem, por isso estavam com tanta certeza de que ela estaria ali. Mattheus foi devagarinho até o armário, mas parou quando ouviu algum gemido vindo de dentro do fusca.
- Ketlyn! Ketlyn! - Mattheus sussurrava alto, fazendo Ketlyn correr para perto dele. - Olhe! Dentro do fusca tem um zumbi! - os dois olharam pelo vidro, mas não conseguiam enxergar nada. Talvez a criatura estava no porta-malas, já que o gemido não parava de ser ouvido.
- Eu vou abrir rapidamente o porta-malas. Espere aí! Ou melhor, pegue este pé-de-cabra e fique apontando, ok? - Mattheus fez com a cabeça que sim. Ketlyn foi para trás do fusca, e apertou o "engate". Mas começou a rir logo em seguida. Esquecera que o porta-malas de um fusca é na parte da frente, e que na parte detrás ficava o motor. O som do gemido parou, Ketlyn fechou o capô e voltou a procurar a chave. Mattheus fez o mesmo. A imaginação deles já estava criando coisas que não existiam.

- Está melhor, irmã? - Raquel aproximou-se de Estella e passou a mão entre seus cabelos, enquanto se ajoelhava para perto da irmã.
- Sim, estou. Já consigo me levantar e a perna não dói tanto.
- E então, vai me dizer por que está vestida deste jeito? Você está tão vulgar! Penso em coisas horríveis quando vejo estas suas vestimentas. Nem sei se posso dizer que isto são roupas.
- Pare de falar assim comigo! Apenas escolhemos caminhos diferentes! Enquanto você ficou e perdoou nosso pai pelo que ele fez em nós, eu não. Você sabe muito bem que não existe perdão para o que ele fez. Molestar e abusar as próprias filhas não é algo paterno, você não acha?
- Nunca repita isto! Deus está ouvindo, Ele sempre ouve! Se nosso pai fez aquilo, agora ele está pagando de um jeito bem severo!
- Sim, sua morte por não pagar drogas aos traficantes é algo bem terrível. Tomara que ele arda no inferno! - Raquel, no mesmo instante em que Estella acabou de falar, largou um tapa em seu rosto.
- Cale a boca! Você deve ser uma vadia! Com estas roupas, só pode ser uma mulher da vida! - gritou Raquel. Estella revidou com um tapa no rosto da irmã.
- Sim, sou uma prostitutä mesmo! Eu vendo meu corpo! É bem melhor do que dar meu corpo de graça para meu próprio pai! E vadia é você, que após a morte de nosso pai, virou a santa do pau oco! Você o odiava muito mais do que eu, e agora vem pagar de filha de Deus? - as duas começaram a brigar loucamente. Os zumbis não paravam de bater na porta, e as garotas não facilitavam em nada. Guilherme parou de segurar a porta para apartar a briga das irmãs. Anderson teve de fazer o mesmo, já que não ia conseguir segurar a porta por muito tempo. Logo depois que separaram as garotas, a porta abriu-se rapidamente. Vários zumbis começaram a entrar na casa. Os objetos apenas atrapalhavam a passagem. Anderson colocou Estella nos ombros e correu para a garagem. Raquel e Guilherme fizeram o mesmo.
- Acharam a chave? Os zumbis estão vindo! - Anderson perguntou para Ketlyn, enquanto colocava Estella dentro do fusca.
- Ainda não! Raquel, você tem certeza de que a chave estava aqui?
- Sim! Quer dizer, não exatamente. Pode ser que meu tio tenha levado a chave junto, quando foi viajar. Ele se preocupa muito com este fusca, para ele é uma relíquia. Se não está aqui na garagem, ele deve ter levado a chave junto. - A casa já estava infestada de zumbis, e Anderson e Guilherme seguravam a porta da garagem agora.
- Eu sei fazer ligação direta. Não pensem que sou ladrão, mas é que já tive meus apertos... - disse Guilherme.
- Então venha para cá! Eu fico aí com Anderson, segurando a porta. Não tenho a mesma força, mas por alguns segundos nós conseguimos. - disse Ketlyn.
Guilherme já arrancava alguns fios que estavam abaixo do volante. Ketlyn estava perto de Anderson, e era apenas isto que importava para ela. Mas a força dos zumbis já estava rachando a porta, que era muito velha. O fusca rangeu o motor. Estava, finalmente, ligado. Raquel sentou ao lado de Guilherme, que estava como motorista. Mattheus, Anderson e Ketlyn se apertaram nos bancos detrás, junto com Estella. Guilherme acelerou o fusca, quebrando o portão de madeira que ficava em frente. A luz da lua estava incandescente como nunca. Os zumbis tentavam correr atrás do fusca, sem sucesso.
- Eu nunca tinha dirigido um carro que não tivesse câmbio automático. A não ser quando fiz o processo para conseguir a carteira de motorista. Só por isso sei dirigir este carro caindo aos pedaços. - disse Guilherme, que estava com raiva de ter que dirigir um fusca. Estavam indo em direção a sua indústria, onde havia um heliporto no topo. Um helicóptero estava a sua espera, e todos estavam muito ansiosos em chegar. Era o único modo de sair vivo daquela cidade, na situação em que se encontravam. Wingstonn virou de pernas para o ar em menos de um dia, por culpa do vírus misterioso. Alguns gritos ainda eram percebíveis, alguns zumbis eram atropelados pelo fusca, todos no carro estavam com medo.


-Local desconhecido, Dhaka/Bangladesh, 24/10/2015, 08h45min-

O local onde o "chefe" de George Müller ficava era um prédio em Dhaka, bem no centro. Os vidros espelhavam a bonita manhã que fazia. Devido ao fuso horário, em Dhaka era manhã e em Wingstonn era noite. A voz misteriosa teclou uns números no celular. George atendeu.
- Olá, chefe! Em que posso ajudá-lo? - disse George, com um tom de "puxa-saquismo" enojador.
- E então, está feliz? Está feliz por fazer apenas merdäs? Não conseguiu evitar que Anderson e aquela garota escapassem do laboratório. Contratou três capangas imbecis, sendo que um deles traiu sua confiança para ficar junto com o grupinho de sobreviventes. Agora, segundo minhas últimas investigações, Anderson está indo para as Indústrias Ângar para pegar um helicóptero e fugir são e salvo de Wingstonn. VOCÊ ESTÁ FELIZ? - a voz engrossou ainda mais. Era nítida a raiva que ele sentia de George.
- Senhor, desculpe, mas tudo isso foi bom para nós. A culpa dos zumbis terem invadido Wingstonn, querendo ou não, foi deles e não nossa.
- Pode até ser, mas agora todos os governos do mundo inteiro sabem sobre o que está acontecendo em Wingstonn. Minha sorte é que eles não querem apavorar as pessoas de todo o mundo e não irão anunciar para ninguém sobre este ataque zumbi. Mas nós sabemos que um dia eles vão saber, pois nosso plano é, definitivamente, acabar com o mundo inteiro, e começarmos uma nova raça: os poderosos! E quem fará parte desta raça? Eu, é claro!
- Com certeza, senhor.
- Você sabe o que deve fazer agora, não é, George? Atrás do helicóptero em que você está tem um brinquedinho. Aguarde os sobreviventes perto do heliporto. E faça isto...


-Indústrias Ângar, Wingstonn, 23/10/2015, 23h02min-

O grupo finalmente chegou na empresa de Guilherme. A entrada estava totalmente destruída. Um caminhão estava estilhaçado lá dentro da recepção. Com certeza, quem dirigia aquele caminhão perdeu o controle e acabou invadindo a entrada da Indústria Ângar. Tudo ficou bem mais fácil para entrar na empresa. Mas todo cuidado era pouco. Estella saiu do carro. Já conseguia andar normalmente. Apenas algumas vezes uma pequena fisgada incomodava a ex-prostitutä. Os outros saíram rapidamente, estavam com medo de ficarem parados. Guilherme estava com medo de que o helicóptero fosse embora sem ele. Todos entraram na empresa.
- Pessoal, existe uma sala no segundo andar que localizavam-se os seguranças. Lá tem muitas armas e bastante munição. Vamos até lá, pois sei que muitos zumbis devem estar aqui dentro. - disse Guilherme. Todos concordaram e começaram a segui-lo.

Até chegarem na sala, não encontraram nenhum zumbi. Entraram silenciosamente na sala de segurança. Dois corpos estavam caídos no chão. Guilherme identificou os dois na mesma hora: eram dois seguranças da parte noturna. Um estava com a cara totalmente deformada e o outro com as tripas do estômago para fora. Raquel vomitou na mesma hora. Andaram um pouco mais. Guilherme abriu uma porta, colocando sua mão direita no decodificador de digitais. Todas as portas importantes tinham estes decodificadores. Anderson nunca tinha visto tantas armas diferentes.
- Peguem o que precisarem! Só não fiquem afobados, pois as armas são pesadas! Quem não souber manuseá-las, fique perto de quem sabe. - Guilherme parecia o líder do grupo. Mattheus e Raquel foram os únicos que não pegaram armas. Estella e Ketlyn queriam a mesma arma, criando um pequeno conflito entre as duas. A arma acabou ficando com Anderson, para acabar com a briga das duas.
- Gente, para acessarmos a porta que nos leva ao heliporto, precisaremos de uma chave especial que está no cofre de minha sala. Teremos que fazer uma visitinha até lá antes de subirmos ao topo.
- Por que você guarda uma chave em um cofre? - Ketlyn estranhou o que Guilherme havia dito.
- Digamos que em meu heliporto existem coisas que ninguém deve saber. Agora é melhor irmos! Minha sala fica no quarto andar.
Durante o caminho até a sala de Guilherme, muitos zumbis atacaram o grupo. Estella quase foi mordida por um, mas Anderson a salvou. A munição era tanta que o número de disparos realizados até o quarto andar não fez falta para Anderson. Ketlyn não disparou um tiro sequer, pois tinha medo de usar a arma. Estella manuseava muito bem a metralhadora que havia pego. Chegaram no quarto andar. Quando Guilherme começou a andar no corredor que ia até sua sala, um zumbi pulou em cima dele. Era sua ex-secretária, Donnes, que queria mordê-lo sem parar. Anderson atirou na cabeça da mulher, que parou de atacar Anderson no mesmo instante. Ela era o único zumbi que estava naquele andar. Com certeza os outros que haviam atacado Guilherme horas antes haviam descido ou subido as escadas, ou caíram pela janela em que usara para escapar. Com a mão direita limpa, Guilherme conseguiu abrir a porta de sua sala. Correu até o cofre, digitou alguns números e pegou uma caixa. Colocou o conteúdo da caixa no bolso.
- Pronto, agora podemos ir. Vamos correr até o último andar! - Guilherme estava estranhamente esperançoso.


-Último andar da Indústria Ângar, Wingstonn, 23/10/2015, 23h49min-

Todos chegaram exaustos no último andar da empresa. A correria nas escadas, que estavam cheias de zumbis, acabou com o fôlego de todos, exceto de Guilherme. Ele estava com uma energia sem tamanho. Era nítido que estava feliz em chegar no último andar. Havia uma escada na parede que levava ao heliporto.
- Guilherme, não há nenhuma porta ou algo parecido que necessite de chave para passarmos ao heliporto. - Anderson disse a Guilherme, depois de ver que as escadas na parede estavam sem nenhum tipo de segurança.
- E quem disse que a chave abria algo? Eu? Ooooh, vocês não deveriam confiar tanto em um empresário de sucesso como eu! - Guilherme pegou o objeto que havia retirado de dentro da caixa que estava no cofre. Não era uma chave, e sim um dispositivo de explosão. - Adeus, otários! - Guilherme apertou um "botão" e jogou na direção de Anderson e os outros. Uma fumaça começou a sair daquele dispositivo, que não estava deixando-os respirarem. Guilherme subiu as escadas que davam no heliporto. Enquanto Ketlyn e os outros tossiam sem parar, com aquela fumaça paralisando seus sentidos, Guilherme trancava a passagem que dava ao heliporto por fora, com algumas madeiras. Virou-se para trás e ficou maravilhado: um grande helicóptero estava estacionado no heliporto, com o piloto em posições de saída.
- Venha, Sr. Folx! Estou a sua espera! - gritou o piloto!
Guilherme começou a correr. O heliporto era enorme, e estava um pouco cansado. Parou de correr rapidamente e começou apenas a andar, com um grande sorriso que ia de orelha a orelha. Os gritos de Anderson e os outros pararam. Com certeza já haviam desmaiado. Aquela fumaça era muito usada por policiais, para paralisar bandidos. Mas um som de helicóptero estava chegando muito perto de onde Guilherme estava. Ele estranhou, já que as hélices do helicóptero em que iria embarcar estavam paradas. Um outro grande helicóptero surgiu, bem em frente a Guilherme. Conseguiu ver que na lataria estava um símbolo estranho e escrito "Laboratório DELTA". Um homem, com uma bazuca no ombro, surgiu na porta do grande helicóptero.
- Então você pensou que iria fugir daqui com seus amiguinhos, cara? Vocês nunca irão sair daqui vivos! - George gritava alto para Guilherme, já que o som das hélices era muito forte.
- O quê? Não, não é o que você está pensando! Eles nunca serão meus amiguinhos! Eu vou sair sozinho daqui! - gritou Guilherme.
- Vou fingir que acredito. Tchauzinho, Sr. Folx. - George mirou com a bazuca para o helicóptero que iria salvar Guilherme dos zumbis. Disparou um grande foguete, que causou uma enorme explosão no heliporto. A estrutura da empresa chegou a tremer devido ao forte impacto da explosão. Guilherme caiu de joelhos no chão, totalmente desiludido. O helicóptero em que George estava saiu rapidamente do local. Guilherme olhou em direção aos entulhos que jogara para bloquear a passagem dos outros sobrevivente ao heliporto.
- Eu estou, realmente, fodido.


CONTINUA...

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