-Vilarejo
Sunshine, Washington, 26/10/2015, 01h59min-
Todos que já estavam dentro do trailer ficaram surpresos com a atitude de
Ricksonn. Mesmo com a perna machucada, ele estava ali, de pé, bloqueando a
passagem para Anderson e Ketlyn entrarem no automóvel. A mulher de Caetano, o
motorista do trailer, estava histérica.
- Daqui vocês não passam! É melhor vocês darem meia volta e procurarem algum
lugar para dormirem, pois neste trailer vocês não colocam os pés! - dizia
Ricksonn, mostrando seu lado mais obscuro.
- Você não precisa se preocupar, Ricksonn! Eu, pelo menos, não vou ir junto com
vocês. Não vou implorar para um desconhecido levar-me para algum lugar que nem
ele próprio sabe. Não vou implorar para viajar junto com você! - disse
Anderson, que não estava nem um pouco triste em deixar o grupo em que Ricksonn
achava ser o líder.
- Eu também não vou, Anderson. Não vou sem você! Ricksonn, se você acha que é
líder deste grupo, saiba que está muito enganado. Você não passa de um homem
querendo ser o centro das atenções! - dizia, com toda a certeza, Ketlyn.
- Não quero interromper, mas já interrompendo, senhor Ricksonn, não acha melhor
darmos pelo menos uma carona para este casal? O trailer é bem espaçoso. - disse
Caetano, que parecia preocupado com aquela discussão interminável. Catherine
deu uma cotovelada no marido, como se quisesse fazê-lo calar a boca.
- Nem pensar! Esses dois vão receber carona para o inferno! Pode fechar as
portas do carro, antes que zumbis apareçam! - disse Ricksonn, dando alguns
passos para trás, sem tirar os olhos de Anderson. Mattheus se levantou do sofá
em que estava sentado e correu até a porta do trailer.
- Eu não vou sem vocês, também! Foram vocês quem me salvaram! - disse Mattheus.
- Nós não podemos lhe proteger da mesma maneira que o grupo inteiro irá.
Achamos melhor você ficar com eles, Mattheus. Sei que foi bom termos você
conosco, mas eu quero o melhor para você! - disse Ketlyn, com um sorriso no
rosto. Mattheus tinha sido um grande amigo na caminhada até Washington, mas era
mais seguro para ele continuar com Ricksonn e os outros.
As portas do trailer se fecharam. Enquanto o automóvel ia saindo do local,
várias cabeças apareceram nas janelas. Luciana acenava para Anderson e Ketlyn e
agradecia por terem salvo sua vida dos canibais. Brenda e Mattheus estavam
também dando adeus a eles. William e Ricksonn não falaram uma palavra sequer.
Alex ficava brincando com os dois filhos de Catherine. E Felippo tossia sem
parar, enquanto estava sentado no sofá de couro do trailer. Anderson e Ketlyn
se olharam. Ela estava com a maleta preta em mãos. Ele com uma metralhadora e
munição nos bolsos.
- Está na hora de recomeçar, Ketlyn. Está preparada? - Anderson deu um sorriso
para Ketlyn.
- Eu nasci com a preparação na veia! Estou aqui para o que der e vier! - disse
Ketlyn, com muito otimismo. Anderson abraçou ela. Os dois não sabiam o que
fazer, mas sabiam que agora eram uma dupla lutando pela sobrevivência. Talvez
mais que uma dupla: um casal.
-Local desconhecido, Washington, 26/10/2015, 02h21min-
Um belo helicóptero levava George e Candy para o centro de Washington. George
havia contado várias mentiras para o chefe. Disse que Anderson e Ketlyn fugiram
por sorte, disse que a única amostra de ALFA X estava segura, dentro de uma
maleta que estava em seu apartamento. Falou também que sofreu um tiro de raspão
perto da orelha. A mordida que recebera de um zumbi minutos antes no pescoço já
estava quase que despercebível. Candy ainda estava indignada com o que havia
acontecido. Ainda não acreditava que ela e seu parceiro deixaram Anderson e
Ketlyn fugirem com seus amigos.
- Qual o seu próximo plano, meu homem "brilhante"? - disse Candy, com
um tom sarcástico.
- O que nosso chefe mandou fazermos! Matar o casal de idiotas! - disse George,
ainda com seu senso de humor.
- Então por que estamos indo para seu apartamento? Não deveríamos ter ido
imediatamente em busca do caipira e da vaca? Eles deviam estar perto, ainda!
- Claro que não! Eu preciso dormir! Meu sono vale muito mais que a morte
daqueles dois. E eles não são nada difíceis de encontrar. Além do mais, preciso
resolver algumas coisinhas que estão dentro de meu apê.
- Não sabia que resolver era sinônimo de esconder. Você tem que tomar cuidado,
querido! Se o chefe descobre que você pegou mais frascos de ALFA X do que o
permitido, nós dois estamos mortos! - sussurrou Candy no ouvido de George. Ele
apenas olhou para ela e deu um sorriso. Sua auto confiança era algo
impressionante.
-Rota 1203, Washington, 26/10/2015, 02h33min-
- A-do-le-ta! Le-pe-ti-pe-ti-po-lá, le-café com choco-lá! Puxa o rabo do tatu,
quem saiu foi tu! - Stephany e Denis batiam as mãos e cantavam felizes. Eles
eram os filhos de Catherine e Caetano. O homem barbudo que dirigia o trailer
tinha dois filhos lindos e felizes, mesmo com o mundo dominado por zumbis.
Ricksonn estava com muita dor de cabeça, e aquela música enjoativa o fazia
ficar mais bravo ainda. Brenda e Mattheus conversavam sobre tudo o que havia
acontecido. Brenda falava de como tinha gostado de conhecê-lo. Mattheus
perguntou se ela já namorou alguma vez, e ela respondeu que não. Alex, o pai de
Brenda, dormira de cansaço. A sogra de Caetano, a senhora Melissa, lia um livro
com capa velha. Seus óculos eram grandes, e tinham pequenas cordas amarradas
nas pontas da armação que passavam por trás de suas orelhas. Luciana estava no banheiro,
secando o bloco de anotações que estava encharcado. Cris apareceu na porta.
- Nossa, você quer me matar de susto, Cris? - disse Luciana, que deu um pulo
quando viu Cris aparecer na porta do banheiro.
- Você está estranha, desde que devolvi este bloco para você. Por que você tem
tanto receio que alguém leia suas anotações? Você não é uma escritora? Você
deveria querer que os outros lessem suas histórias. - disse Cris, que estava
curioso para saber o conteúdo do bloco.
- O que tem anotado neste bloco de papeis não é uma história! Não é da sua
conta e da conta de ninguém! Agora me dê licença! - Luciana saiu do banheiro
rapidamente. Ela estava nervosa. Cris ficou ainda mais ansioso em saber o que
teria de tão secreto no bloco da escritora. Mas seus pensamentos foram
interrompidos com gritos aterrorizadores vindos da sala principal do trailer.
Quando Cris chegou na sala para ver o que estava acontecendo, viu Felippo em
cima de Catherine, querendo mordê-la.
- Saiam de perto, pessoal! - gritou Ricksonn. Um disparo certeiro fez Felippo
ceder o ataque.
- Meu Deus! Meu Deus! Caetano! Você viu isso? Você viu? Você colocou este grupo
de pessoas infectadas em nosso trailer! Seu idiota! Eu poderia ter morrido!
Isto tudo é culpa sua! - as crianças estavam assustadas, escondidas em baixo da
mesa. Caetano parou o trailer e olhou para a mulher. Talvez ela estivesse
certa.
- Desculpem-me, mas preciso que todos vocês saiam do trailer. Pensei que
pudesse confiar em vocês, mas percebi que estava enganado. - Caetano apenas abriu
as portas do trailer. Todos começaram a levantar-se, mas Ricksonn começou a
falar.
- O quê? Vocês acham mesmo que vão nos deixar aqui, no meio do nada? Este
imbecil que estava infectado não contou nada para nós! E isto serviu para
comprovar a vocês como podemos ser úteis para a segurança de vocês! Imagine se
não estivéssemos aqui? Sua mulher já teria virado banquete para o zumbi!
- Se vocês não estivessem aqui eu não estaria sendo atacada, idiota! -
Catherine gritou para Ricksonn. Mas, no mesmo instante, a mulher recebeu um
soco na cara. Um soco forte, vindo do punho de Ricksonn. Todos ficaram pasmos
com a frieza do "líder".
- O que você pensa que está fazendo? Você bateu na minha mulher! - Caetano
correu para perto da esposa, para tentar tranquiliza-la.
- Eu mando aqui! Eu sou o líder! Quem não está satisfeito, que meta a bunda
para fora daqui, antes que eu tenha que atirar bem na cabeça! Eu dou a última
palavra, e se eu digo que vamos ficar, é porque vamos ficar! Entenderam? -
Ricksonn estava fora de si. A família de Caetano estava muito assustada. Não só
eles, mas todos que estavam presenciando aquele momento de fúria. Ricksonn foi
até o banco do motorista, sentou, fechou as portas do trailer e começou a
dirigir. Catherine chorava nos braços do marido. Seu olho estava roxo e
inchado. Talvez Ricksonn não era quem realmente mostrava ser: um líder justo e
do bem.
-Bar dos Honnygans (Vilarejo Sunshine), Washington, 26/10/2015, 03h15min-
Anderson e Ketlyn finalmente acharam, naquele vilarejo fantasma, um local com
comida não perecível. Era um bar, que ainda tinha energia elétrica. Antes de
começarem a jantar latinhas de feijão esquentadas no micro-ondas, Anderson
havia vasculhado todo o bar, para ver se era seguro. Não encontrou nenhum
vestígio de zumbis. Tomaram cerveja, riram de acontecimentos passados e
planejavam mil coisas para o futuro. Parecia que ali, naquele momento, nada
mais importava para o casal. Os zumbis tinham sido esquecidos completamente.
- Eu vi uma vitrola antiga, ali atrás daquelas mesas! Vou pegar uma ficha e
escolher uma música para dançarmos, pode ser? - disse Anderson, que mesmo sem
ouvir a resposta de Ketlyn, já estava se levantando para colocar uma música.
Anderson colocou "Linger", da banda The Cranberries. A música era
linda, Ketlyn levantou-se e abraçou Anderson. Os dois começaram a dançar
lentamente, com os olhos focados uns nos outros. O clima foi esquentando.
Anderson colocou Ketlyn sobre o balcão e começou a beijá-la. Ela começou a
desabotoar sua camiseta. Ele beijava-a e mordia sua orelha incessantemente. Os
dois tiveram uma noite de amor inesquecível. Os gemidos de Ketlyn demonstravam
a grande ligação carnal que o casal tinha.
- Eu te amo, Anderson! Eu te amo! - dizia Ketlyn, sem parar.
- Eu também te amo, Ketlyn! Você me faz querer sobreviver! - repetia Anderson.
O casal era perfeito. Pelo menos uma bela noite eles tinha vivido. Era quase
impossível acreditar que alguém poderia ser feliz num mundo infestado de
pessoas famintas por carne humana. Mas ainda existiam exceções, felizmente.
Continua...