-Colégio
Stinguelford, Wingstonn, 22/10/2015, 07h42min-
Wingstonn era muito
importante para o país quando relacionavam-a com educação. Tinha as melhores
escolas primárias e secundárias, os melhores colégios e a melhor faculdade. O
Colégio Stinguelford foi eleito três vezes consecutivas com o melhor ensino da cidade.
Mas nem tudo eram flores no colégio. O bullying era algo muito comum entre os
"populares", que se consideravam melhores que os outros por se darem
bem com as garotas e serem ótimos no futebol americano; e os "nerds",
que eram nomeados desta forma por serem ótimos estudantes e, muitas vezes,
esquecerem a vida pessoal e social para devorarem os livros. Mattheus Garddy,
adolescente de 14 anos, era o que mais sofria preconceito dos colegas de
classe. Filho de mãe solteira, só via diversão nos estudos. Naquela manhã de
outubro, Mattheus chegou ofegante em sua sala, pois estava muito atrasado. Ele
próprio não suportava seus atrasos. Havia esquecido de ativar o despertador
digital e acordou por pura sorte. Deu duas batidas de leve na porta de sua sala
e entrou logo em seguida.
- Desculpe, professora Dursle. Posso entrar?
- É claro, querido! Entre, entre! Chegou na hora certa! Irei explicar algumas
coisas novas sobre trigonometria! - a professora de matemática adorava
Mattheus. Ela sentia-se realizada profissionalmente apenas de tê-lo como aluno.
Enquanto Mattheus ia em direção a sua mesa, um trio de garotos jogou algumas
bolinhas de papel em seu rosto. O "líder" daquele trio era Rowl
Anster, o garoto que mais implicava com Mattheus.
Estava muito frio naquela manhã, e Mattheus lembrara do cachecol que sua mãe
havia trabalhado semanas para fazer e que terminara na noite anterior. Tocou o
sinal do intervalo. Mattheus enrolou no pescoço o lindo cachecol, feito de
crochê e com alguns detalhes em macramê. Saiu da sala e ia em direção ao
banheiro. Quando chegou lá, deu de cara com o trio de encrenqueiros de sua
sala.
- Mas que pedaço de pano mais horrível é este em seu pescoço, Matthestranho?
Estava tentando se enforcar? - Rowl e seus amigos riam do acessório que Mattheus
estava usando para aquecer seu pescoço.
- Não, Rowl. Isto é um cachecol, foi minha mãe quem fez. - respondeu com toda a
calma do mundo.
- Que lindo! Vou pedir para minha mãe fazer que nem a sua! Pegar um pano de
chão, passá-lo na bösta de um cavalo e depois enrolá-lo em meu pescoço! Não é o
máximo, viadinho? - os três saíram gargalhando, e Rowl empurrou Mattheus para
dentro do banheiro com uma ombrada.
- Idiotas...
-Colégio Stinguelford, Wingstonn, 22/10/2015, 11h48min-
Já estava na hora de ir para casa. O sinal do colégio estava com um som
estranho, às vezes falhava, às vezes diminuía e aumentava o som. Mattheus foi
até o bicicletário para pegar seu meio de transporte para chegar em casa. Viu,
perto do portão do colégio, um senhor aparentemente alterado, que gritava sem
parar "o mundo vai acabar", "as muralhas da cidade desabarão e
uma terrível verdade cairá sobre nós". Mattheus não se importou muito,
pegou sua bicicleta e foi em direção a saída do colégio. Mas, inesperadamente, duas
bicicletas passaram em alta velocidade por Mattheus. Logo depois, uma terceira
bicicleta - com Rowl na direção - passou pelo garoto e puxou seu cachecol que
estava no pescoço.
- Ei! Parem! Ele é meu! - gritava Mattheus para os três delinquentes.
- Venha buscar, seu trouxa! - Rowl saiu em disparada com seus dois amigos em
direção aos Rochedos de Fallen, um local turístico de Wingstonn, com lindas
paisagens e altos precipícios. Mattheus não pensou duas vezes e começou a
perseguir Rowl.
Mattheus alcançou Rowl perto da entrada dos Rochedos de Fallen. Sem pensar em
mais nada a não ser pegar seu cachecol, bateu com o guidão de sua bicicleta no
ombro de Rowl, que o fez desequilibrar-se e cair como uma pedra no chão. Os
dois comparsas pararam na mesma hora e correram até Rowl.
- Está tudo bem, cara? Sua perna está sangrando! - disse um dos amigos de Rowl.
- Segurem aquele nerd filho de uma vaca! - Rowl ordenou aos outros dois garotos
que segurassem Mattheus, que obedeceram na mesma hora. Cada um segurava um
braço. Rowl se aproximou de Mattheus e começou a dar socos em seu estômago. Um
deles foi tão forte que fez o garoto sangrar pela boca. - Isto é para você
aprender a não se meter comigo, imbecil! Continuem segurando ele, amigos. A
melhor parte vem agora!
Rowl deu alguns passos para trás. Olhou fixadamente nos olhos de Mattheus.
Levantou o cachecol de crochê como se estivesse levantando o prêmio por vencer
alguma competição. Sem dó e piedade, puxou tão forte os extremos do cachecol
que o transformou em fios soltos, que se desprendiam aos poucos e que o vento
levava para longe. Mattheus, no mesmo instante que viu aquele garoto destruindo
o presente que sua mãe tanto demorara para fazer, é possuído por um ódio nunca
antes tão intenso. Com uma força sem explicação, solta-se dos dois meninos e
corre em direção a Rowl. Sem perceber o que estava fazendo, empurra-o com muita
força para trás. Rowl acaba tropeçando e cai em algumas rochas gigantescas que
ficavam logo abaixo de onde os garotos brigavam. Mattheus se aproxima da ponta
do precipício onde Rowl caíra. Os outros dois comparsas fazem o mesmo. Logo em
seguida, os dois amigos de Rowl saem gritando pela polícia e pelos bombeiros.
Mattheus fica muito atordoado com o que vê lá embaixo: Rowl estava morto.
Passaram-se alguns minutos e Mattheus ainda estava paralisado. Havia cometido
um homicídio e não sabia o que fazer. Era nítido que Rowl havia quebrado o
pescoço na queda. Só pensava em uma coisa: fugir. Precisava correr o mais longe
possível, encontrar um lugar em que ninguém o acharia, onde ninguém o
procuraria. Instantaneamente algo fez Mattheus lembrar para onde poderia ir:
qualquer local além das muralhas que bloqueavam as estradas da cidade seria um
ótimo esconderijo. Precisava se esconder por um tempo, para pensar o que iria
fazer depois. Mattheus só não sabia como poderia ultrapassar aqueles muros de
concreto altíssimos. Um odor forte o fez ler uma placa um pouco antes da
entrada dos Rochedos de Fallen. A placa dizia "Esgoto de Wingstonn -
200m". Mattheus lembrou que, em uma visita escolar às Indústrias Ângar -
uma empresa que lucrava com a reciclagem da cidade - havia aprendido que os
esgotos de Wingstonn interligavam todos os locais da cidade. Então, sem pensar
em outra coisa, pegou a bicicleta em que poucos minutos atrás percorria Rowl e
jogou precipício abaixo. Era uma maneira de eliminar pistas para saber onde
Mattheus poderia ter fugido. Em seguida, correu muito, até chegar ao Esgoto de
Wingstonn.
Mattheus encontrou um bueiro entreaberto e desceu as escadas rapidamente, como
se a FBI já estivesse a sua procura. Estava muito escuro lá e o mal cheiro era
insuportável. Ratos, baratas e outros animais passavam quase sem parar nos pés
de Mattheus. Mas ele não tinha nojo. Havia matado seu colega de classe, ratos e
baratas subindo em seu corpo não poderia ser pior do que isto. Nada poderia ser
pior do que ter matado alguém, pensava Mattheus. Aquele esgoto parecia mais um
labirinto sem saída. Seria muita sorte se encontrasse um bueiro que saísse
exatamente depois das muralhas gigantescas. Passaram-se horas despercebíveis
para Mattheus que, com o cansaço que estava, acabou adormecendo por entre as
águas do esgoto.
-Acampamento de Lettwan, Wingstonn, 23/10/2015, 09h25min-
A manhã daquela sexta-feira estava com uma cara horrível. O sol estava
escondido por entre nuvens acinzentadas, que soltavam gemidos baixos, revelando
que uma forte tempestade estava para chegar. Anderson não havia conseguido
pregar o olho um segundo sequer durante a noite inteira. Tinha receio de que
Luciano os trairia durante a madrugada e que, quando acordassem, estariam atrás
de grades, como prisioneiros de George. Mas percebeu que sua preocupação era em
vão. Luciano dormiu como se nada tivesse acontecido no laboratório ou em
qualquer outro lugar. Ketlyn também demorou para dormir, mas conseguiu depois
de algumas horas de conversa com Anderson. Após todos terem comido algumas
bolachas que Lettwan tinha na caminhonete, estava na hora de começarem a
colocar o plano em prática.
- E então, Luciano, qual é sua ideia genial para sairmos daqui e irmos para o
centro de Wingstonn? - Ketlyn indagou o ex-capanga de George.
- Bom, como eu disse ontem, precisaríamos descansar para chegarmos onde há uma
passagem para o centro da cidade. Este lugar é o esgoto de Wingstonn! Foi por
ele que eu, Spencer e Peogle passamos para chegarmos ao Laboratório ALFA. Eu
tenho aqui um mapa subterrâneo. - Luciano tirou de dentro da cueca um papel
totalmente dobrado.
- Então você guarda as coisas de que precisa na cueca? - Ketlyn tentou ser
brincalhona.
- Eu tenho uma coisa muito mais interessante dentro dela. Caso queira ver
depois, é só falar! - Luciano também fez uma piadinha, com um olhar de
sacanagem.
- Não estamos aqui para saber o que você tem dentro da cueca. Vamos usar a
caminhonete de Lettwan para chegarmos até a entrada do esgoto. Tenho certeza de
que Lettwan não irá se importar. E Luciano, eu não encostarei em seu mapa, ok?
- os três sorriram com o comentário de Anderson. Todos concordaram em pegar a
caminhonete. Anderson deu a partida e começou a dirigir. Estavam indo em
direção ao Esgoto de Wingstonn.
-Esgoto de Wingstonn (Lado do Laboratório ALFA), Wingstonn, 23/10/2015,
11h52min-
Após chegarem onde o mapa indicava, Luciano surpreendeu-se. O bueiro por onde
tinha saído no dia anterior, com Peogle e Spencer, agora estava soldado. Era
impossível abri-lo apenas com a força das mãos. Aos poucos vinham zumbis.
Anderson atirava com as últimas balas que restavam nas metralhadoras. Tinham de
pensar em outro plano.
- Gente, eu tenho uma ideia, mas é bem arriscada. - Luciano disse com uma cara
nem um pouco incentivante. - Eu tenho guardada aqui em meu cinto uma granada.
Ela só deveria ser usada em último caso. E acho que este é o momento certo.
- Mas você sabe, Luciano, que a explosão desta granada irá chamar a atenção de
muitos zumbis, certo? E que, depois de entrarmos, não teremos como trancar
novamente o bueiro, não é? - perguntou Anderson.
- Sim, por isso eu disse que é bem arriscado. Mas é nossa única chance. Posso
tentar? - Ketlyn e Anderson aceitaram. Anderson puxou o engate que ativava a
granada e todos saíram de perto. A explosão foi, realmente, muito barulhenta.
Corvos que estavam nas árvores voaram assustados, e começaram a corvejar muito
alto, chamando ainda mais a atenção dos zumbis que estavam por perto. Mas, pelo
menos, a granada funcionou. O bueiro arrebentou-se de uma maneira que até um
elefante passava para dentro do esgoto. Com o estrondo altíssimo, Mattheus
acordou. Começou a gritar por socorro. Sabia que a prisão seria melhor do que ficar
para sempre trancado em um labirinto fedorento. Anderson, Ketlyn e Luciano
começaram a correr sem parar. Centenas de zumbis apareceram do nada e também
entraram no esgoto. Não dava tempo para Luciano olhar para que lado deveria ir.
A correria foi tanta que Luciano acabou deixando cair o mapa. Já não aguentavam
mais correr. Mas, felizmente, haviam despistado os zumbis.
- E agora? O que faremos? Estamos sem o mapa! - Ketlyn estava muito nervosa. -
Será que estas malditas criaturas nunca irão parar de ter fome!
- Temos que ficar em silêncio! Nós cometemos um grande erro em deixá-los entrar
no esgoto da cidade! O sangue contaminado deles está derramando na água deste
esgoto, que cairá no rio que abastece a cidade. Muitas pessoas começarão a
infectar-se, caso a transmissão do vírus seja na mistura do sangue entre a
vítima e o infectado! - Ketlyn e Anderson não haviam pensado nesta
possibilidade. Talvez estavam fazendo tudo o que George queria que fizessem:
disseminassem o vírus sem que a culpa caísse sobre ele. O silêncio foi quebrado
quando alguém gritava desesperadamente pela polícia.
- Polícia, estou aqui! Me tira daqui! Pode me prender! Eu aceito a punição! Mas
eu não fiz por querer! Polícia! Po... - uma mão fez Mattheus parar de mexer os
lábios.
- Cale a boca, seu menino imbecil! Se falar mais um pio, eu amarro sua língua!
- Luciano parou os gritos de Mattheus. Mas já era tarde demais. Os berros do
garoto ecoaram pelos esgotos, fazendo os zumbis voltarem as atenções para
novamente dentro do esgoto.
CONTINUA...