Episódio 5: FUGA 

-Laboratório ALFA, Wingstonn, 22/10/2015, 13h02min-

Os zumbis não paravam de bater na porta da sala onde Ketlyn e Anderson estavam. O som daquelas criaturas era algo desesperador para quem o ouvia.
- O que faremos, Anderson? Têm muitos lá fora, nunca conseguiremos sair daqui sem que eles percebam. E se esperarmos muito sem fazermos nada, eles conseguirão entrar. Eles têm muita força quando estão em grupo!
- Acalme-se, Ketlyn. Quanto mais silêncio fizermos, mais tempo ganharemos. Vou verificar se esta sala possui alguma janela, está bem? Fique aí!
Estava muito escuro e Anderson não encontrou uma janela que fosse. A sala era totalmente a prova de fuga. A única coisa que Anderson viu foi um pequeno ducto de ar, mas que mal cabia uma ratazana. Não haviam maneiras de Ketlyn e Anderson escaparem vivos daquela sala. Pelo menos não na situação em que estavam.


-Local desconhecido, Dhaka/Bangladesh, 22/10/2015, 23h05min- 

O fuso horário de Dhaka, capital de Bangladesh, era de exatamente dez horas em comparação com a hora atual de Wingstonn, nos Estados Unidos. Enquanto Anderson e Ketlyn tentavam fugir do laboratório à tarde, alguém os espiava à noite, no mesmo momento. O dono daquela voz que repreendia George no telefonema agora cuidava de todos os movimentos que a jornalista e o fazendeiro faziam. O celular tocou. Era George novamente.
- Senhor, só estou ligando para avisá-lo que já estou tomando as devidas providências para não deixar os intrusos saírem do laboratório.
- O quê você fez? Espero que não cometa mais erros! - a voz grossa foi ríspida com George.
- Não se preocupe! Acabarei com aqueles idiotas em um instante! Ligo mais tarde para informá-lo sobre como tudo aconteceu, senhor. - Müller desligou o celular.
- Espero que ninguém sobreviva naquele laboratório... se não meus planos podem começar a darem errados.


-Laboratório ALFA, Wingstonn, 22/10/2015, 13h10min-

Enquanto não sabiam o que fazer para escaparem da sala de câmeras, Ketlyn e Anderson aproveitaram para se conhecerem um pouco mais. Ketlyn contou a ele que adorava esportes radicais e que era faixa marrom no judô. Praticava alpinismo sempre que podia. Também disse que faria um ano que trabalhava como jornalista no próximo mês. Anderson disse a ela que sua vida limitou-se ao campo. Quando criança, ajudava o pai nas lavouras, cuidava do pasto e alimentava os animais. Sempre foi um bom fazendeiro. Agora ambos estavam preocupados com o que iria acontecer com suas vidas.

Passaram-se alguns minutos e os zumbis ainda batiam na porta. Estavam famintos por carne. Mas algo inesperado aconteceu. Vários tiros estavam sendo disparados fora da sala de câmeras. Ketlyn olhou rapidamente para Anderson, com um olhar de surpresa. Talvez o milagre que tanto precisavam estava acontecendo. O som das metralhadoras era nítido. Alguém, nos corredores daquele andar, estava acabando com todos os zumbis que estavam tentando entrar na sala. Anderson foi até a porta e olhou pela fechadura para tentar entender o que havia acontecido. Conseguiu ver três homens com roupas de soldado.
- Procure na sala de câmeras, Peogle. Eu e Luciano iremos para o próximo andar! Precisamos encontrar os sobreviventes que estão aqui. - gritou um dos três soldados que haviam acabado com os zumbis. Peogle começou a chegar mais perto da porta e Anderson voltou para junto de Ketlyn. O soldado arrombou a porta, já que não estava conseguindo abri-la por causa dos objetos que Anderson usou para bloquear a passagem.
- Alguém está aí? Viemos para ajudar. Somos da Corporação de Policias de Wingstonn. - gritou Peogle.
- Viu, ele é policial! - sussurrou Ketlyn.
- Eu duvido que ele seja da polícia. Olhe as roupas dele! Nem possui distintivo da delegacia da cidade!
- Mas eles salvaram nossas vidas. Com certeza vieram para nos ajudar! - Ketlyn saiu detrás de uma mesa de computadores e levantou os braços. - Estamos aqui, senhor policial! Por favor, nos ajude!
- Pessoal, encontrei eles! - o suposto policial gritou aos outros dois parceiros, que estavam no andar de cima. - Graças a Deus encontrei vocês! Foram mordidos?
- Não, estamos apenas assustados! - respondeu Ketlyn. - Mas como vocês sabiam que estávamos aqui?
- Recebemos um telefonema dizendo que três pessoas estavam invadindo o Laboratório ALFA. Como somos seguranças municipais da delegacia, fomos instruídos para prender-lhes, pois estavam invadindo uma propriedade privada. Mas quando chegamos aqui, vimos o estado deplorável deste lugar. Então começamos a procurar vocês para ver se ainda estavam vivos. Ainda bem que estão!
Anderson parou de estranhar o surgimento milagroso dos três policiais, pois estava pensando que estavam ali para acabar o trabalho sujo de George. Os outros dois policias apareceram por trás de Peogle.
- Ainda bem que encontramos vocês! Peogle já deve ter explicado como tudo aconteceu, certo? Sou Spencer Woodfolt, este é Peogle Lock e este outro é Luciano Gunlli.
- Tudo bem, chega de papo furado. Vamos sair daqui! Nos acompanhe. - disse Luciano, que virou-se em direção às escadas do décimo quarto andar, criando uma fila. Anderson e Ketlyn estavam despreocupados agora. Estavam a salvo.

Durante o caminho, os policiais perguntaram onde estava o terceiro integrante que havia invadido o laboratório. Ketlyn percebeu que estavam falando de Cristian, e ela explicou tudo. Chegaram até o último andar do laboratório. Spencer e Luciano atiraram em mais alguns zumbis que apareceram pelo caminho. Peogle ficou atrás de Anderson e Ketlyn, como se fosse um segurança particular.
- Pronto, pessoal. Estamos na entrada do topo do laboratório! Subirei estas escadas para tentar abrir o alçapão, ok? - disse Spencer, que subiu alguns degraus para ver como se abria um grande alçapão que situava-se no teto. Olhou algumas vezes e desceu novamente. - Está trancado por um grande cadeado, infelizmente. Não poderemos passar se não tivermos a chave!
- Senhor policial, não é preciso apenas que você atire no cadeado?
- Não, senhorita. Aquele cadeado é à prova de balas. Se eu atirar, estarei desperdiçando munição e chamando a atenção daqueles desmiolados. Precisamos das chaves! - disse Spencer, com um tom de voz digno de autoridade.
- E como vamos encontrar esta chave? - perguntou Anderson aos policias.
- Se não me engano, vi no décimo primeiro andar uma placa que dizia "Setor das Chaves e Passaportes". Talvez nesta sala tenha todas as chaves das portas e cadeados do laboratório! - disse Luciano.
- Então faremos da seguinte forma: Peogle, Luciano e a moça ficam esperando aqui. Eu e... Anderson, não é? Bom, eu e ele iremos em busca da chave. Décimo primeiro andar, certo Luciano?
- Sim, Spencer. Esperaremos aqui, então. Boa sorte!
- Cuide-se, Anderson! - disse Ketlyn, que foi correspondida com um sorriso.

Anderson e o policial desceram as escadas sem trocarem uma palavra sequer. Não apareceram zumbis até o andar onde havia o setor das chaves, para alívio de Anderson. Chegaram até a porta da sala.
- Irei entrar primeiro, ok? Você vem logo atrás. Como tudo está muito escuro, usarei minha lanterna. - Spencer foi tirando uma lanterna do cinto. Abriu a porta com cuidado e entrou sem fazer barulho. Anderson veio logo atrás. A sala não estava totalmente escura, já que ainda era dia. Os raios do sol estavam radiantes e iluminavam algumas partes da sala das chaves. Mesmo assim, ainda estava bem escuro para alguém que quisesse encontrar algo naquele local. Anderson começou a vasculhar todas as gavetas das mesas que haviam na sala. Mas algo fez ele parar. Percebeu que Spencer havia sumido de repente. Quando foi virar para trás, recebeu um soco no rosto, fazendo-o cair para o lado.
- Por que você fez isso, Spencer? - falou Anderson, já se levantando. - Está louco?
- Passe-me o disquete, idiota. Agora!
- Disquete? Como assim? Não tenho nada disto! - Anderson percebeu na mesma hora que sua preocupação de antes tinha fundamentos. Agora sabia que aqueles "policiais" não passavam de capangas de George. Anderson recebeu outro soco.
- Não brinque comigo! Recebi ordens para matá-lo e pegar o disquete, mas caso você facilite as coisas para mim, pouparei sua vida. Vai, passe o disco agora! - no mesmo instante em que Spencer ameaçou o fazendeiro, ouviram-se tiros de metralhadora que vinham dos andares de cima. Anderson pensou em Ketlyn no mesmo momento.
- Maldito! O que seus comparsas estão fazendo com Ketlyn?
- Com certeza o disco estava com ela. E ela não facilitou para eles. Já que você não foi bonzinho, farei o mesmo com você: lhe matarei!
Anderson pulou em cima de Spencer. Os dois começaram uma luta corporal desesperadora. A metralhadora do falso policial mirava para todos os lugares. Anderson estava correndo muito perigo. Alguém abriu a porta da sala. Spencer conseguiu ver que a pessoa que havia entrado estava com uma metralhadora na mão. Pensou que era um de seus amigos.
- Luciano, Peogle! Atire nele, rápido! Minha munição está acabando, não quero gastá-la sem ver se acertei nele. Atire!
- Eu não sou nenhum dos seus comparsas imbecis, "policial" Spencer! - Anderson ouviu nitidamente uma voz feminina. Era Ketlyn! Ela pegou a arma que estava em sua mão e acertou em cheio na cabeça de Spencer, que desmaiou na hora.
- Muito obrigado, Ketlyn!
- Não foi nada. Agora estamos quites, não acha?
- Sim, claro! Agora vamos sair daqui, imediatamente! Mas antes precisamos encontrar a chave.
- Não existe chave nenhuma! Eu percebi que o alçapão tinha, realmente, um cadeado. Mas ele estava aberto! Aqueles idiotas tentaram me segurar quando eu percebi que tudo não passava de uma emboscada e atiraram em mim. Mas eu fui mais rápida.
- E como eles não estão atrás de você?
- Durante a perseguição, um deles foi atacado por um zumbi. Se não me engano foi aquele tal de Peogle. O outro foi tentar ajudá-lo. Os dois sumiram e um deles deixou cair a metralhadora no chão. Então eu a peguei e vim para cá sem problemas.
- Então agora vamos! Já perdemos bastante tempo aqui, com estes falsos policiais!

Os dois correram para o último andar. Chegaram até o alçapão, onde Anderson viu o cadeado aberto. Sentiu-se um idiota por ter caído na armadilha dos capangas de George. Ketlyn passou para o topo do laboratório primeiro. Quando Anderson ia subir as escadas, ouviram-se gritos aterrorizadores: "Socorro, socorro! Pelo o amor de Deus! Socorro!". Ketlyn percebeu que a voz era de Luciano.
- Alguém está gritando por socorro, Ketlyn!
- Sim, é um dos policiais, Luciano. Mas vamos logo, temos que sair daqui!
- Eu preciso ir ajudar! Eu sei que fomos enganados por ele, mas não quero ser igual a ele.
- E se for outra armadilha, Anderson? Não se esqueça de que Spencer só está desacordado! Talvez ele até já esteja atrás de nós!
- Fique aqui, Ketlyn. Eu vou tentar ajudá-lo. Será bom o salvarmos, pois depois podemos obrigá-lo a falar coisas sobre o George. Teremos ainda mais provas! Eu já volto! - Anderson correu em direção às escadas. Ketlyn até tentou fazê-lo desistir daquele salvamento suicida, mas sem sucesso.

Anderson chegou na sala do décimo quarto andar, onde ecoavam os gritos de desespero de Luciano. Era também percebível os ruídos dos zumbis lá dentro. Com certeza não era um plano. Luciano estava, realmente, em perigo. Anderson abriu a porta. Luciano gritou ainda mais por ajuda. Ele estava escondido embaixo de uma mesa de ferro, com algumas cadeiras na frente e do lado, para evitar as mordidas dos zumbis. Quando Anderson abriu a porta, todos os zumbis olharam para ele e começaram a ir em sua direção. Mas o fazendeiro puxou o gatilho e derrubou vários zumbis. Para Anderson não parecia ter sido muito difícil, mas depois viu que havia gasto quase toda a munição. Luciano saiu de seu esconderijo.
- Muito obrigado, cara! Nem sei como agradecê-lo! Me tire daqui, por favor! - Luciano implorava por ajuda.
- Luciano, cadê seu outro comparsa, o Peogle? Ketlyn disse que ele foi atacado e que você tentou salvá-lo.
- Infelizmente não consegui. Os zumbis trucidaram ele. Foi terrível! Peço desculpas ao que fiz para você e para a garota! Estou muito arrependido! Agora vamos, por favor! - Quando os dois estavam saindo, bateram de frente com Spencer. Anderson pensou no mesmo instante que acabara de cair em outra armadilha.
- Pensou que eu não ia pegá-lo, Anderson? - Spencer apontou a arma para o fazendeiro.
- Pare, Spencer! Está tudo errado! Ele me ajudou. Salvou minha vida. Serei eternamente grato a ele!
- Ok, Luciano! Então case com ele, quando se encontrarem no inferno! Pois é para lá que vocês vão! A recompensa que iríamos ganhar de George por matar esses inúteis invasores será somente minha, já que Peogle e você estarão mortos! - quando Spencer ia atirar em Anderson, Luciano deu um golpe certeiro em seu queixo, fazendo deixar cair a arma no chão. Anderson percebeu que Luciano estava mesmo de seu lado.
- Me ajude, Anderson, a jogá-lo na sala onde eu estava. Você não matou os zumbis, apenas os derrubou. Não podemos deixar Spencer livre. Está de acordo? - Anderson e Luciano jogaram Spencer para a sala onde estavam os zumbis e trancaram a porta por fora com uma madeira que estava encostada na parede. Não pensaram duas vezes e saíram correndo em direção ao alçapão. Enquanto subiam, ouviam os gritos de Spencer. Com certeza ele havia sido um grande banquete para os zumbis.


-Em frente ao Laboratório ALFA, Wingstonn, 22/10/2015, 16h20min-

Depois de muito tempo, o trio havia conseguido sair daquele terrível laboratório. Quando Ketlyn viu Luciano junto a Anderson, assustou-se. Mas enquanto desciam as grandes escadarias que estavam nas paredes externas, que iam desde o topo do laboratório até o térreo, já estava claro tudo o que havia acontecido.
- O que faremos agora? Vocês dois já tem algo em mente? - Luciano queria saber o que iriam fazer.
- Precisamos passar as muralhas de concreto, para chegarmos até o centro de Wingstonn. Só lá poderemos desmascarar George Müller. - disse Ketlyn, com um pouco de receio em contar o plano para aquele que poucas horas antes estava tentando matá-la.
- Luciano, precisaremos de sua ajuda. Estamos contando com você para acabarmos com George. - disse Anderson.
- Podem contar comigo! Quando George contratou-me, não contou que haviam zumbis naquele laboratório. Ele também me enganou. Estou com muito ódio dele!
- Mas como iremos passar pelas muralhas? Eu consegui porque usei minhas ferramentas de alpinismo, mas as derrubei durante a correria da fuga do laboratório.
- Eu tenho uma ótima ideia para conseguirmos passar para o outro lado. Mas antes precisamos descansar muito, não acham? Teremos muito pela frente. - disse Luciano.

O trio foi em direção ao acampamento de Lettwan, depois que Anderson explicou aonde poderiam descansar. Quando chegaram lá, tudo estava como antes. Anderson procurou por Lettwan, mas não o encontrou. Obviamente não o encontraria vivo, pois havia cometido suicídio. Os três adormeceram rapidamente. A noite estava belíssima, as estrelas pareciam pisca-piscas natalinos. Mal sabiam que a energia que estavam recuperando durante o sono seria pouco para tudo que enfrentariam no outro dia...

CONTINUA...

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