Episódio 4: VERDADES
-Laboratório ALFA, Wingstonn, 22/10/2015, 11h35min-
Ketlyn e Cristian ficaram paralisados. Não sabiam o que fazer. George Müller estava bem atrás deles e agora olhava-os com sarcasmo. - Você mentiu em tudo que disse na Praça de Eventos! Duvido que você é, realmente, o diretor das farmácias ALFA! - Ketlyn rompeu o silêncio acusando George das mentiras que contara no centro de Wingstonn. - Não me faça rir, querida. Hoje não estou para brincadeiras. Vim aqui para saber o que vocês pretendem! Vasculhando coisas que não são da conta de vocês, vindo em locais abandonados... Isto não se faz. Não sei se chamo a polícia ou se chamo logo a FBI. O que vocês acham? - Chame mesmo, George. O primeiro a ir preso será você! - Ketlyn novamente falou rispidamente para o ex-estagiário. - Acalme-se, Ketlyn! Desculpe, Sr. George, minha companheira de trabalho às vezes é meio explosiva... - Cristian tentava amenizar as coisas. - Não se preocupe, Cristian. Não vou chamar a polícia, muito menos a FBI. Sei me cuidar sozinho. Acabarei com vocês pessoalmente. George Müller puxou uma pistola de dentro do terno e mirou em Cristian. Quando ia puxar o gatilho, alguém o agarrou por trás e faz derrubar a arma no chão. Era Anderson. - Quem você pensa que é, cara? Me solte agora! - George tentava soltar-se, mas Anderson não era fraco. - Fujam, agora! - Anderson gritou para Ketlyn e Cristian. George deu uma cabeçada no queixo de Anderson, fazendo-o liberar-se de suas mãos. Müller não pensou duas vezes em pegar sua arma, que estava caída no chão. Mas quando ia pegar, Ketlyn pisou em sua mão e pegou a pistola. Mirou na mesma hora para George. - Eu duvido que você saiba atirar, sua vadia. - George intimidou Ketlyn. E realmente estava certo. Ketlyn nunca havia tocado em uma arma. Ela tremia muito. - Cale a boca! Fique parado aí. - disse Ketlyn, ainda mirando em George. Anderson já estava se recuperando da cabeçada. Cristian só queria sair dali vivo. Mas não queria sair sem a jornalista. O câmera-man foi indo para trás aos poucos, suplicando para Ketlyn que largasse a arma e que fugisse. Cristian foi indo para o escuro, sem perceber. Ouviu um gemido. Quando se virou, um zumbi pulou em cima de Cristian. Ele tentou lutar contra a criatura, mas o zumbi conseguiu morder seu braço. Ketlyn apavorou-se e perdeu a atenção em George. O mesmo aproveitou para escapar. Anderson tentou segui-lo, mas o "diretor" das farmácias ALFA empurrou algumas pilhas de caixas e estantes de ferro para bloquear a passagem. - Tranque todas as portas do laboratório, agora! - disse George em um mini-microfone que estava em sua orelha, após ter conseguido sair pela porta. Logo após, todas as portas de saída começaram a se fechar, trancando Anderson, Ketlyn e Cristian dentro do laboratório. Pelo menos Ketlyn ainda tinha a arma em mãos. Cristian gritava de dor. O zumbi não parava de atacá-lo. - Me dê a arma, moça. - disse Anderson, já tirando das mãos da jornalista a pistola. Mirou na cabeça do zumbi e atirou. Finalmente a criatura parou de morder o braço de Cristian, que jorrava muito sangue. - O q-q-uê foi i-isto? - gaguejou Ketlyn, colocando as mãos na cabeça. Cristian gemia de dor. - Por que este homem me atacou? Você sabe me dizer, senhor? - Cristian perguntou a Anderson. - Ele não é mais um homem. Segundo um amigo meu, estas criaturas são zumbis... - Zumbis? É isto mesmo que eu ouvi? Ah, não me venha com palhaçadas, panaca! Isto só existe em filmes! - Acalme-se, Cristian! Olhe seu braço! Fique parado aí, vou tentar fazer parar de sangrar! - Ketlyn interrompeu a discussão e rasgou um pedaço do pano da camiseta que Cristian estava usando para amarrar no local da mordida. Ela tremia muito. Estava nervosa demais. - Você é a jornalista do canal local, não é mesmo? Vi você ontem a noite, falando em frente a este laboratório. - Sim, sou Ketlyn. Ketlyn Moura. - estendeu a mão para Anderson. - Prazer. Me chamo Anderson Grindd. - Vocês poderiam parar de se conhecer e tentar me ajudar a pensar em um modo de como poderemos sair daqui? - Cristian estava muito bravo. Acho que qualquer pessoa que estivesse no mesmo estado que ele também estaria. Anderson começou a retirar os entulhos que bloqueavam a passagem das escadarias. Ketlyn tentava acalmar Cristian, que tremia sem parar. Em poucos minutos ele já estava com febre. Anderson novamente puxou conversa. - O que vocês vieram fazer aqui? E quem era aquele cara com a arma? - Aquele homem era George Müller. Mais cedo, no centro da cidade, ele fez um pequeno discurso dizendo o porquê das estradas estarem bloqueadas. Ele disse a mim que este laboratório não estava abandonado e que estava funcionando normalmente. E então eu vim aqui com meu câmera-man para ver se era verdade o que George estava falando. - Ketlyn, enquanto falava, passava a mão na cabeça de Cristian. - Como assim? As estradas estão bloqueadas? - Sim. Acho que este George, que se diz diretor dos Laboratórios ALFA, ordenou alguém a trancar todas as entradas e saídas de Wingstonn. Estamos isolados. - Com certeza ele fez isto porque não queria que a cidade inteira soubesse dos zumbis. Os ataques estão acontecendo desde ontem à noite, aqui pelas redondezas. Sei disso porque também fui atacado. - Anderson sabia que já tinha falado demais. Não aguentava lembrar que tinha sido ele mesmo que havia matado sua família. - Ele escapou, mas irá voltar em breve. Ele não vai nos deixar vivo. Nós sabemos muita coisa que não deveríamos. - disse Cristian, que logo depois tossiu repetidamente. - Pronto, consegui liberar as escadas. Só devemos tomar cuidado. Ainda devem haver muitos zumbis aqui dentro. Ketlyn apoiou o braço de Cristian em seu ombro. Ele ainda estava consciente, mas não sabia por quanto tempo. Sua febre só aumentava. O trio começou a subir a escadaria. Avistaram uma placa onde dizia "Segundo Andar - Setor A ao F". Anderson ia na frente, com a arma em mãos. Ele verificou quantas balas ainda tinha a pistola, e não gostou do que viu. Haviam poucas. Chegaram ao final das escadas. Ketlyn viu um vulto correndo por detrás de algumas estantes. Anderson avisou que deveriam ter cuidado, pois os zumbis eram atraídos pelo som. Cristian desmaiou. Anderson avistou uma outra placa na parede, que dizia "Setor B - Enfermaria". Decidiram levá-lo para lá. - Ele está queimando em febre. E não sei nada de remédios. Você sabe o que podemos usar para diminuí-la? - disse Ketlyn a Anderson, com um tom de preocupação. - Sim, sei. Já estou procurando. Meu filho caçula tinha muitas vezes febre. Era eu quem o remediava. Para ele eu sempre dava um paracetamol, mas para adultos o ibuprofeno é o mais indicado. - Anderson falava e procurava por pilhas de remédio ao mesmo tempo. Falava tão bem os nomes dos remédios que parecia um médico. Finalmente encontrou o que procurava. Pegou um comprimido, levantou a cabeça de Cristian e jogou para dentro. Não havia água para ajudar a engolir o medicamento, mas o comprimido não dificultou as coisas. - Tomara que esta febre diminua o mais rápido possível! Em nossa situação, estamos num covil de cobras, e nó somos os ratos. Os únicos ratos. Se ficarmos muito tempo aqui, parados, seremos presas fáceis para estas criaturas. - disse Ketlyn, que ainda não se acostumava em falar "zumbis". Ainda não acreditava que eles existiam, e que um deles havia mordido seu companheiro de trabalho. - Mas não sei se o remédio irá ajudar muito... - Anderson falou sem pensar. - Como assim? O que você está querendo dizer? - Ketlyn olhou estranho para Anderson. - É que já vi muitas pessoas que foram mordidas por zumbis e, após algum tempo, a vítima tornou-se igual a eles. - Anderson lembrou de sua família. - Cale a boca, seu mentiroso! Não acredito em uma palavra que você diz! - Ketlyn começou a chorar e bater no peito de Anderson. No fundo ela sabia que ele dizia a verdade. Ela cansou de dar socos em Anderson e recostou a cabeça em seu peitoral. Desabou em choro. - Diga que é mentira o que você acabou de dizer! Por favor, diga que Cristian irá melhorar! Eu nunca vou me perdoar! Fui eu quem fiz ele vir para cá, neste lugar imundo! Anderson abraçou Ketlyn. Ele sabia como ela sentia-se. Sabia porque já havia passado por aquele mesmo sentimento. Cristian começou a tremer ainda mais. Os dois viraram-se para ele. Logo, o câmera-man se levantava da maca que estava deitado. Olhou para a jornalista. - Pode atirar, Anderson. - disse Ketlyn, virando seu rosto para a parede. Não queria ver a morte de seu melhor amigo, apesar de que ele já estava sem vida. Cristian atacou Anderson, mas o disparo da pistola foi mais rápido. Ketlyn chorou ainda mais. Anderson disse que deveriam sair dali o mais rápido possível, já que o som do tiro tinha sido muito alto. Os dois saíram da enfermaria e iam em busca de outras escadarias. Anderson tinha esperança que houvesse uma saída pelo teto, mas para isso deveriam subir todos os andares do laboratório. Ketlyn ouvia muitos gemidos vindos do Setor C. Encontraram as escadas. -Local desconhecido, Wingstonn, 22/10/2015, 12h05min- George já estava em um helicóptero. Não sabia-se como, mas logo após ter saído do laboratório, ligou para alguém pedindo um helicóptero. Após alguns minutos, já descia um dos céus para embarcá-lo. Novamente George pegou o celular, teclou alguns números. - Senhor, quantos deles ainda estão vivos no Laboratório ALFA de Wingstonn? - disse George a alguém. Era percebível que George não era o chefe dos planos contra as empresas ALFA. Havia alguém ainda maior por trás de tudo. - Ainda possuem dois indivíduos vivos no laboratório. Mas você é um imprestável mesmo, não acha? Como você pôde ter deixado pessoas entrarem naquele laboratório? Todas as pessoas que moravam próximo a ele deveriam estar mortas, e todos os que estavam na cidade deveriam esperar sentados a liberação das estradas! - Uma voz grossa recriminou os atos de George. - Desculpe, senhor. Porém, eu não tinha como saber que alguém sairia vivo dos ataques na parte rural de Wingstonn. Anderson Grindd é o único sobrevivente aos ataques. E eu não tinha como saber também que duas pessoas pulariam as muralhas de concreto para investigar o laboratório. Mas não se preocupe, senhor. Eles não têm como saírem vivos de dentro do laboratório! - Se você não tinha como saber todas as coisas que você me disse agora, como pode saber que eles não sairão vivos de lá? Esqueceu que o teto do laboratório não é trancado pelos sistemas de bloqueio? Se eles chegarem até lá vivos, eles saem sem nenhuma dificuldade. Se isto acontecer, quem estará morto será você, George Müller. - a voz misteriosa desligou na cara de George. O estagiário estava vermelho de bravo. - Eles não sairão vivos de lá. Não mesmo. -Laboratório ALFA, Wingstonn, 22/10/2015, 12h25min- Anderson e Ketlyn já estavam no décimo terceiro andar. Faltavam apenas mais dois andares para chegar ao topo do laboratório. Até chegarem ao andar que estavam, tinham sido atacados por vários zumbis. Mas Anderson queria economizar balas, por isto corriam o quanto podiam para escaparem. Os zumbis eram lentos e logo paravam de persegui-los. Anderson avistou outra placa na parede, e aquela dizia algo que ele achou muito importante: "Décimo Terceiro Andar - Setor de Câmeras". - Ketlyn, neste andar deve ter algo que George não quer que saibamos. Devem haver gravações de tudo que aconteceu aqui ontem, durante a saída dos cientistas e funcionários. Você quer procurar? Ou quer sair logo daqui? - Vamos lá! Eu vim aqui com o intuito de procurar pistas contra George. Se Cristian estivesse aqui, com certeza ele ia falar "vamos embora daqui, agora!", mas seria da boca pra fora. Eu sei que Cristian adorava investigar coisas perigosas junto a mim. Vamos achar estas pistas, vamos escapar daqui e iremos acabar com George! Os dois entraram na única porta daquele andar. A sala era enorme. Estava cheia de computadores, com faíscas saltando para todos os lados. A maioria deles estavam danificados. Exceto um. - Olhe, Anderson, aquele computador! É o único que está ligado! Mas como? A energia do laboratório está totalmente desativada! - Com certeza este computador está ligado a outro gerador de energia. Ele deve conter coisas muito importantes. Vamos verificá-lo. Anderson foi até o visor do computador. Sua tela era sensível ao toque. Haviam várias opções, mas Anderson tocou na que dizia "Câmeras de Segurança". Logo depois escolheu a opção "Andar do Cientista Wolfin", pois Ketlyn disse a Anderson que George culpou Wolfin ao incidente que havia resultado em algo muito ruim. Então várias imagens apareceram no visor do computador. Anderson escolheu a última que tinha, que correspondia a última gravação das câmeras naquele andar. As imagens estavam ruins, mas o áudio estava perfeito. "- Sr. Wolfin, está tudo pronto para a experiência final. Só falta chegar a cobaia." - Ketlyn percebeu que a voz era idêntica a de George. "- Entendido. Leve-me uma xícara de café na minha sala, George. Depois peça para alguém levar-me as seringas vazias, para que eu possa colocar a substância ALFA." - pela lógica, Anderson deduziu que quem falava no momento era Wolfin. "- Ok, senhor. Com pouco açúcar, certo? Senhor... ?" As vozes pararam por alguns minutos. Ketlyn até pensou que o vídeo já havia acabado, mas Anderson disse que o contador de tempo do vídeo ainda não havia zerado. Ouviram um gemido de alguém no vídeo, mas não dava para deduzir quem era. Então esperaram mais um pouco, e as vozes retornaram. "- O que houve, cara? Estava tudo tranquilo!" - Ketlyn percebeu que a voz de Wolfin já estava alterada. Algo já tinha acontecido. Ouviram alguns passos. A gravação melhorou a qualidade da imagem, e os dois conseguiram ver Sr. Wolfin apertando freneticamente o botão do elevador. Então viram que alguém chegava por trás do cientista. Novamente voltou o áudio. "- O senhor não tomou todo o café. É muito indelicado deixar um estagiário falando sozinho, Wolfin." - Anderson e Ketlyn viram George dando uma facada em Wolfin. A imagem começou a falhar e não conseguia mais se ouvir nada. O vídeo acabou e uma opção apareceu na tela, logo em seguida: "Criar backup do arquivo em um disquete?". - Olhe, Anderson! Podemos salvar o vídeo em um disco. É a maior pista que poderíamos ter. Salve logo e poderemos sair daqui o mais rápido possível! - Anderson tocou na opção e em poucos segundos um disco saiu de dentro do computador. Agora já poderiam fugir do laboratório. Ketlyn abriu a porta. Os dois se assustaram após verem que uma multidão de zumbis estava no corredor. O áudio do vídeo havia atraído-os para lá. Anderson sussurrou para Ketlyn que fechasse a porta em silêncio. Mas já era tarde demais. Todos os zumbis viram a dupla na sala de câmeras. Ketlyn fechou a porta rapidamente e Anderson jogou várias estantes para tentar bloquear a entrada dos zumbis. Aquela porta era a única entrada e saída daquela sala. Os cientistas e funcionários infectados não paravam de bater na porta. Ketlyn e Anderson estavam, literalmente, encurralados. Continua... |