Episódio 3 - MENTIRAS
-Local desconhecido, Wingstonn, 22/10/2015, 09h05min- Passados alguns minutos, Anderson voltou ao seu normal, mas, claro, com algumas dores na cabeça. A queda tinha sido muito alta. A batida tinha sido muito forte. Olhou para o lado e avistou um senhor de costas, fumando um charuto. Ele virou-se para Anderson. - Ah, bom dia, dorminhoco. Pensei que não ia mais acordar. Desculpe pelas bengaladas, Sr. Grindd! - Anderson reconheceu no mesmo momento quem era aquele senhor: era Lettwan, o vizinho de 60 anos, que Anderson achava que tinha presenciado a saída dos cientistas do Laboratório ALFA. - Como estamos aqui? Ou melhor, onde estamos? - Estamos perto do Farol dos Golfos. Vi você desmaiado naquele tronco. Você tem sorte que estou acampado aqui, no meio do mato. Os cientistas-loucos não apareceram aqui ainda. E onde está sua família? Por que você estava desmaiado ali? - Lettwan percebeu como Anderson ficou depois que perguntou sobre sua família. Desviou o assunto, jogando uma pedra no rio. Ficaram em silêncio por um bom tempo. O rio era belo e imenso. O Farol dos Golfos ficava bem ao centro do rio e era um lugar turístico de Wingstonn. Era um farol abandonado, mas os detalhes nas paredes realizados por um artista francês em 1963 deixavam o local com uma aparência requintada. Anderson quebrou o silêncio. - Sr. Lettwan, por que estava acampando aqui? Os cientistas atacaram sua família? - Não tenho família, meu jovem. Sou sozinho, desde que minha mulher faleceu. Mas sim, os zumbis atacaram-me na minha fazenda. Tinha ido cuidar das minhas vacas quando um abestado de jaleco branco tentou morder meu braço. Acertei ele com uma pá. Quando tentei voltar para casa, só consegui salvar minha caminhonete, pois muitos cientistas estavam dentro de minha casa. Graças a Deus tinha tudo de que precisava nela, pois adoro acampar. Vim para cá porque é perto do farol, perto do meu local favorito... - Anderson viu que Lettwan apertou um broche que estava usando em seu casaco quando falou sobre o farol. - Acordei assustado ontem de madrugada, quando ouvi barulhos de espingarda. Logo depois, vi você, caindo como uma pedra. - Por que você diz que os cientistas são zumbis? - Oras! É simples! Aquelas pessoas não tinham mais sã consciência! Só pensavam em me morder, em tirar minha pele e colocar na boca! Nunca viu filmes de zumbis? Eles são iguais! Além disso, sei que são zumbis porque vi meu vizinho ser atacado por alguns, ontem. Vi que um daqueles cientistas mordeu a perna do homem. Então, fui prestar ajuda a ele, e após alguns minutos, meu vizinho se tornou como eles. Mas ele tinha morrido antes de se transformar naquilo. Alguém que morre e volta é zumbi, não é verdade? - Anderson deu um sorriso de canto. -Centro da Cidade, Wingstonn, 22/10/2015, 10h00min- Uma multidão de pessoas tomava conta da Praça de Eventos de Wingstonn, que ficava no centro da cidade. Nesta praça ocorriam várias cerimônias importantes para a cidade, desde um comício de políticos até inaugurações de lojas, comércios da cidade. Mas neste dia o tumulto não era sobre algo bom para a cidade. Todos os habitantes estavam confusos e com medo. Ainda não sabiam nada sobre os acontecimentos do Laboratório ALFA. - Queremos mais declarações, prefeito! - gritou um dos milhares protestantes que ali estavam. - Por que trancaram todas as entradas e saídas da cidade? Não podemos chegar nem nas partes rurais da cidade! O que está havendo? - mais um protestante soltava a voz para o palco de eventos, onde estavam várias autoridades, menos o prefeito. - E com a palavra, vosso excelentíssimo prefeito, Raul Echzann Wood! Peço silêncio, por favor! - disse no microfone um dos secretários da prefeitura da cidade. Todos os protestantes e moradores da cidade ficaram a espera do prefeito, que subiu as escadas laterais do palco. Chegou até o microfone e deus duas batidinhas no mesmo, para testá-lo. - Muito bom dia a todos vocês, queridos moradores de Wingstonn! - alguns poucos protestantes vaiaram a saudosa entrada do prefeito. - Estou aqui para esclarecer os últimos acontecimentos de nossa cidade. Sei que estão estranhando o isolamento de nossa cidade com todo o resto do mundo, mas a explicação é simples, e será dada pelo diretor das farmácias e laboratórios ALFA! Senhor George Müller! - somente as autoridades que estavam em cima do palco aplaudiram a entrada de George. Mas ninguém dos protestantes conheciam aquele homem que o prefeito dizia ser o diretor dos Laboratórios ALFA. Todos estranharam a chegada de George. - Bom dia a todos vocês! Como posso ver, vocês estranharam minha chegada ao palco. Sei que nunca me viram em local algum, mesmo as empresas ALFA serem tão famosas. Mas eu sempre vivi no anonimato, nunca quis fama! Sei que os remédios que minhas empresas produzem são, muitas vezes, a salvação de seus problemas! E estou aqui... - Para de enrolar, idiota! - Algum protestante gritou enfurecido com a demora daquela "reunião". - E estou aqui para explicar-lhes o porquê das estradas da cidade bloqueadas. Um erro foi cometido por um de nossos cientistas mais inteligentes de nossa corporação! Ele chama-se Sr. Wolfin! Mas, devido seu erro em uma experiência, nós precisávamos bloquear as estradas, pois o produto que ele possivelmente estava inventando para melhorar a saúde de todos vocês deu errado, e a melhor coisa foi isolar vocês deste mal. A experiência deu tão errado que provocou a morte deste cientista tão lisonjeado por todos nós! - Senhor, senhor! - uma jornalista que estava perto do palco onde George informava a multidão pedia repetidamente a palavra. Queria fazer alguma pergunta ao estagiário que, de um dia para outro, virou misteriosamente o diretor das empresas ALFA. Claro que tudo ainda era um grande segredo. Era nítido que alguém estava por trás, alguém que queria acabar com as farmácias e laboratórios ALFA. George era uma peça fundamental para este plano misterioso. - Fale moça! - George deu a chance da jornalista fazer sua pergunta. - Bom dia, senhor George! Sou a jornalista Ketlyn Moura, do canal local de Wingstonn! Ontem, por volta das 22 horas e 30 minutos, eu e minha equipe estávamos em frente ao Laboratório ALFA. Um senhor ligou para a nossa emissora, por volta das 17 horas de ontem, avisando sobre um possível ataque a ele, realizado por pessoas que saíam feito loucas do laboratório. Mas nossa conexão foi quebrada, e tivemos que voltar para a emissora. O senhor tem algo a declarar sobre isto? Estes "ataques" são resultados do erro do cientista Wolfin? - Senhorita, posso assegurar-lhe que não houve ataque algum. Nosso Laboratório ALFA de Wingstonn continua trabalhando normalmente, para restabelecer as coisas o mais rápido possível. Garanto-lhe que este senhor queria passar-lhes um trote. - Mas senhor, o laboratório parecia abandonado. - Minha senhorita, como já disse, não teve ataques! Nem entendo como poderia ser este "ataque"! Bom, era isto que eu queria vos falar, moradores de Wingstonn. Em breve as estradas estarão liberadas! Bom dia a todos! - George acenou aos protestantes, que olhavam-o com cara feia. Muitos o vaiavam, gritavam por mais informações, queriam saber o tempo exato que demoraria a liberação das estradas. George se despediu de todas as autoridades que ali estavam, e foi embora sorrindo, um sorriso diabólico. Todo o tumulto tinha começado cedo na cidade. Muitos moradores trabalhavam em cidades vizinhas, e quando estavam indo ao trabalho, se deparavam com muralhas enormes de concreto especial. Ninguém sabia como poderiam ter colocado aquelas coisas enormes sem ninguém ter visto. Mas a tecnologia em 2015 era enorme. Muitas coisas que anos anteriores podiam ser impossíveis, atualmente eram bem normais. Ketlyn não tinha engolido as palavras de George. Sabia que algo de errado estava acontecendo. - Cristian, venha aqui. - gritou Ketlyn para seu câmera-man, que estava filmando toda a declaração de George no palanque. - As filmagens ficaram ótimas! É uma pena que nossa emissora esteja ainda sem conexões! Mas quando voltar, publicaremos todo nosso trabalho de hoje o quanto antes! - Sim, claro! Mas agora preste atenção no que iremos fazer! - Iiiihh... pense duas vezes no que vai falar, Ketlyn! Não vá nos colocar em confusão! - Cristian era bem medroso. Tinha cabelos compridos e louros. Sua barba era um pouco comprida, e tinha alguns brincos nas orelhas. Ketlyn era morena e muito linda. Sua pele com tom mais escuro ficava ainda mais bela quando os raios solares refletiam nela. - É claro que não, bobinho! Nós apenas iremos investigar o Laboratório ALFA! Eu duvido que alguém esteja trabalhando lá! E caso George tenha dito a verdade, nós falamos algo sobre tentar entrevistar ele. Não tem erro! - E se o local estiver mesmo abandonado, o que faremos? - Vamos filmar e tirar algumas fotos do local. Depois, criamos um artigo bem legal para publicarmos no jornal. Assim, poderemos começar a descobrir o que houve com os erros do cientista Wolfin e por que trancaram as estradas! Eu sei que aquele diretor dos laboratórios mentiu em tudo que ele disse, intuição feminina de uma jornalista nunca falha! - A senhorita que manda! - Cristian mostrou continência para Ketlyn, como se ela fosse um tenente do exército. Os dois se dirigiram para um carro, onde Cristian dirigia. Foram em busca de pistas no Laboratório ALFA. -Rio das Antilhas, perto do Farol dos Golfos, Wingstonn, 22/10/2015, 10h11min- - O que você irá fazer da vida, Sr. Grindd? - Para falar a verdade, Lettwan, ainda não sei. Ainda não acredito no que vi ontem. Espero que tudo não passe de um pesadelo. - Sinto dizer-lhe que não há pesadelo algum, Anderson. É tudo muito real. Garanto que tudo isso tem haver com aquele laboratório gigante que fica na estrada, perto daqui. Meu vizinho foi o senhor que ligou para a emissora local para contar que tinha sido atacado. Achei que ele estava ficando louco. Mas agora acho que também estou louco. - Minha vida desmoronou, Sr. Lettwan. Perdi tudo. Minha esposa, meus filhos, minha fazenda. Mas agora quero vingança! Se estas criaturas são zumbis mesmo, vou descobrir como posso acabar com eles. Estou respirando só para conseguir me vingar de todos que acabaram com minha felicidade! - Não pense em vingança, Anderson. Quando minha mulher morreu, eu também queria me vingar. Ela faleceu no farol. Eu e ela tínhamos ido visitá-lo, quando dois homens encapuzados nos atacaram. Pegaram dinheiro, cheques, a chave do carro. Minha mulher usava sempre este broche, - Lettwan apertou novamente o broche que estava em seu casaco - um dos ladrões tentou levá-lo. Mas ela foi mais rápida, jogou-o no rio. Para mim, aquele broche era a coisa que mais valia naquele momento, sentimentalmente. Ela tinha feito o certo. Ela não queria entregar o broche que tinha ganho de mim quando nos casamos para aquele ladrão. Mas um dos ladrões atirou na minha mulher, e fugiram logo em seguida. Fiz o velório dela aqui nestas areias onde estamos agora, perto do rio. Quando a cerimônia acabou, fui até a beira do rio, jurei vingança para mim mesmo. Mas algo quis mostrar-me que de nada adiantaria a vingança. O broche dela chegou até mim, flutuando pelo rio. - Mas você não entende. Eu preciso me vingar. É a única coisa que ainda me faz viver. Já sei para onde vou. - Posso saber aonde? Não quero ser intrometido. - Vou para o laboratório. Já que você disse que acha que tudo pode estar relacionado àquele lugar, irei para lá, procurar algumas pistas. Só ficarei mais algum tempo por aqui, para descansar a cabeça. Preciso estar muito bem para enfrentar aquelas criaturas novamente. - E como enfrentará elas? Que eu me lembre, sua espingarda está sem cartuchos. - Procurarei pela mata algo para eu usar. Com certeza terá algum machado ou facão caído pela floresta. Começarei agora mesmo. Anderson foi se distanciando do acampamento de Lettwan aos poucos. O senhor ficou olhando o rio. Ficou olhando o farol. Tirou o broche do casaco. - Acho que está na hora de eu ir até você, meu amor. - guardou o broche no bolso da calça, e começou a entrar aos poucos no rio. Já estava longe do acampamento. As águas estavam turbulentas naquela manhã. Lettwan sabia nadar, mas não queria bater suas mãos mais. Só queria afundar mais e mais. Só queria estar junto da mulher novamente. A morte de Lettwan foi rápida. Não houve muito sofrimento. Seu corpo foi parar nas encostas do Farol dos Golfos. -Estrada para o Laboratório ALFA, Wingstonn, 22/10/2015, 10h41min- - Como você quer passar por esta barreira? Ela é feita de concreto bem duro, Ketlyn! - Calma, Cristian. Ela não é muito alta, somente alguns metros de altura. - Alguns? Um prédio de quatro andares é pequeno comparado a este muro! Vamos embora, não há como passarmos! - Como você desiste rápido! Por isso que sua mulher largou você! Além de ser feio é frouxo. - Só não mando você calar a boca porque tem razão em tudo que disse, Ketlyn! - os dois riram. Eram grandes amigos. - Vou pegar no carro meu kit de alpinismo! Esqueceu que sou uma atleta também, Cristian? - Ketlyn, além de jornalista, era uma mulher bem radical. Adorava esportes arriscados. Tirou do carro alguns equipamentos. Amarrou na cintura algumas cordas, e jogou na parede um objeto parecido com um gancho. Aos poucos a moça ia escalando a muralha. - E como é que eu vou ir? Eu não tenho coragem de escalar este muro inteiro! - Relaxa. Quando eu chegar no topo, amarrarei uma corda nestas engrenagens, depois jogarei a ponta para você. Daí você precisa só amarrar na cintura, que eu te puxo. Ok? - Ai meu senhor, me proteja! - suplicava o câmera-man, olhando para o céu. Passaram-se alguns longos minutos, mas a dupla conseguiu passar para o outro lado. Para Ketlyn foi tudo muito fácil, quem dificultou as coisas foi Cristian, que não parava de gritar, com medo que derrubasse a câmera que tinha levado junto. Mas o importante é que tinham conseguido. Agora tinham de caminhar bastante até chegar ao laboratório. - Bem que você poderia ter amarrado uma corda no carro, Ketlyn. Ir andando até aquele laboratório é um tédio. - Pare de reclamar e ande. Se trouxe a câmera, trouxe tudo. -Laboratório ALFA, Wingstonn, 22/10/2015, 11h35min- Haviam caminhado quase uma hora. Ketlyn percebeu instantaneamente que George havia mentido, pois o laboratório estava visivelmente abandonado. O que assustou ela foi que, nas portas de entrada, haviam muitos rastros de sangue. - Nem morto eu entro aí! - Deixa de fazer corpo mole, Cristian! Este sangue só mostra o quanto George é falso! Temos que desmascará-lo! Quem sabe o que ele está planejando agora? - Maldita hora que eu queria ser câmera-man... Os dois entraram no laboratório com muito medo. Mal sabiam o que tinha lá dentro. Cristian sussurrava que era melhor eles voltarem, Ketlyn mandava-o calar a boca. Chegaram até o elevador. Apertaram muitas vezes o botão que o acionaria, mas tudo estava sem luz. Então começaram a procurar as escadas, mas muitos entulhos bloqueavam a passagem. - Algo muito terrível aconteceu aqui! - Ketlyn, pronto! Já filmei o estado deplorável que está o laboratório, agora podemos ir, não é? - Não acredito que vocês vão embora bem na hora que eu cheguei, "amigos"! Ketlyn e Cristian se assustaram ao ouvir aquela voz. Os dois se viraram para ver quem era. Ketlyn se assustou mais ainda. Era George! Continua... |