Episódio 3: O CINEMA 

-Shopping Center Crystal, Washington, 24/10/2015, 20h40min-

Horina e o médico, Felippo, cuidavam do nariz de Mattheus, que não parava de sangrar. Enquanto isso, Anderson e Cris perguntavam a William o porquê de tanta raiva. Não sabiam que Mattheus havia matado um garoto, mesmo que sem querer. William contou tudo a Anderson, mas de uma forma que Mattheus fosse realmente culpado. Disse que o adolescente havia tirado a vida do amigo por querer, disse que ele tinha muito ódio de Rowl e por isso o matou. Anderson não sabia em quem acreditar.
- Por favor, William, não bata mais nele. Se ele for culpado desse assassinato, não seremos nós que determinaremos sua punição. Olhe pela janela. Olhe quantos zumbis estão tirando vidas, agora. Nosso mundo não será mais o mesmo. Não existe mais justiça lá fora. Mas em nosso grupo ainda vai existir caráter e dignidade. Então, eu lhe peço, não bata mais no Mattheus. - disse Anderson, enquanto William, um adolescente com cabelo moicano e alguns piercings na orelha, olhava para o nada, como se nem estivesse ligando para o que Anderson falava. Quando o fazendeiro parou de falar, William olhou para ele.
- Eu quero que ele se ferre. Se você acha que o mundo não tem justiça, eu irei provar o contrário. Pelo menos eu farei justiça. - levantou-se e foi em direção a um banco isolado. 
- Ele está com a cabeça quente. Eles são apenas crianças. Logo, logo, farão as pazes. - disse Cris.

Mattheus já estava melhor, seu nariz não sangrava mais. Todos estavam muito cansados. Anderson percebeu que Ketlyn estava sozinha e foi até ela para puxar conversa e descobrir algumas coisas que não paravam de cutucar em sua mente.
- E então? Vai me contar como sobreviveu, como chegou até aqui, como sabia que eu estava no hospital? - Anderson deu um sorriso para Ketlyn.
- Logo depois que eu corri para chamar a atenção dos zumbis, eu acabei indo longe de mais, e muito mais zumbis estavam atrás de mim. Achei melhor me esconder em um edifício que encontrei por acaso. Não podia fazer barulho, se não os zumbis iriam voltar. Acabei dormindo. Depois de algumas horas, acordei assustada, com alguém me cutucando. Era Cristopher. Ele era um dos pilotos de helicópteros que estava salvando as pessoas famosas de Wingstonn, igual aquele que iria salvar Guilherme. Mas quem ele iria salvar não apareceu, e então começou a recrutar pessoas parar irem com ele. Ele me encontrou e disse que estaria vindo para Washington. Lembrei-me que vocês iriam vir para cá, então aceitei e vim junto. Todos que estão aqui no shopping foram salvos pelo Cris.
- Nossa. Eu ainda me sinto culpado em tê-la deixado lá. Mas eu tentei procurá-la. Fomos até um colégio da cidade, mas você não estava lá. Desculpe.
- Você não teve culpa de nada, Anderson. Eu apenas pensei que poderia ser útil em espantar os zumbis do quartel. Realmente fui, mas não do jeito que eu queria. O importante é que estamos aqui, agora. E sobre ter descoberto que você estava no hospital foi fácil. Todas as televisões estavam falando sobre o ataque no shopping e diziam onde estavam os suspeitos. Você é considerado um fugitivo da lei, Anderson. - os dois riram. Estavam felizes pelo reencontro.

Passaram-se algumas horas. Todos estavam dormindo em camas de plástico, iguais aquelas de acampamento. Felippo encontrou dentro de uma loja de utensílios para pescaria e acampamentos. Apenas Mattheus não pregou o olho. Estava com medo de que William tentasse alguma coisa contra ele. Levantou-se para ir lavar o rosto. Estava com uma dor de cabeça terrível. Mattheus passou silenciosamente por William, que estava bem perto de Horina e Romuel. Alguns passos e chegou até o banheiro. Quando foi abrir a torneira, percebeu algumas manchas de sangue seco na pia. Estranhou, mas não achou que fosse sangue de zumbi, já que tinha uma cor clara e normal. Saiu do banheiro e começou a ir em direção a sua cama. Tudo estava muito escuro. Apenas a luz da lua iluminava o interior do shopping, que era feito totalmente de vidro. Mas algo lhe chamou a atenção: risadas de criança vinham do andar de cima, de uma loja de brinquedos. Mattheus pensou em chamar Anderson e os outros para irem com ele ver se alguém estava dentro da loja. Poderia ser uma sobrevivente. Mas não, decidiu ir sozinho para a loja. Quem sabe não era apenas algo de sua imaginação. Subiu as escadas rolantes, que estavam paradas, em direção a entrada da loja de brinquedos. A porta estava entreaberta, o que deixou Mattheus mais receoso. Mas não hesitou, e entrou na loja mesmo assim. Bonecas nas vitrines pareciam encarar Mattheus. Parecia um filme de terror, daqueles em que bonecos ganham vida e atacam pessoas. As risadas ficaram mais nítidas quando Mattheus chegou em uma embalagem com uma boneca dentro. Era aquele brinquedo que ecoava gargalhadas no shopping.
- Eu sabia que você gostava de bonecas, seu marica. - Mattheus virou-se assustado para trás, mesmo sabendo que a voz de quem havia dito aquilo era de William.
- O que você quer? Você sabe que eu não tive culpa da morte de Rowl!
- Não teve culpa? Como você tem coragem de dizer isto? Ele apenas pegou aquele seu pedaço de pano horrível para zoar com sua cara. E o que você fez? Empurrou-o ladeira abaixo! Seu filho de chocadeira!
- Você não tem o direito de falar assim de minha mãe! Você não a conhece! E se quer saber, eu adorei a morte daquele idiota. Ele sempre me deixou pra baixo, me discriminava! Melhor você me deixar em paz, se não o mesmo acontecerá com você! - disse Mattheus, com uma raiva nunca antes tão agressiva. Quando William iria retrucar, um grito desesperador ecoou no shopping. Vinha do último andar do shopping. Em poucos segundos todos estavam reunidos no andar onde o grupo dormia.
- O que está acontecendo? Eu vi que William e Mattheus desceram correndo as escadas. Foram vocês que fizeram algo? - perguntou Ricksonn, que após acordar assustado, ficou ainda mais mal humorado.
- Não! Eu apenas fui verificar um barulho estranho na loja de brinquedos e encontrei o idiota do Mattheus lá. - disse William. Os gritos não cessaram. Eram gritos femininos.
- Ricksonn, eu tenho uma ideia. Vamos eu, você e Cris ver o que está acontecendo lá em cima. Eu estou sem armas no momento. Alguém tem uma para emprestar? - perguntou Anderson.
- No último andar existe uma loja de artilharia. Lá poderemos pegar armas e munição. - disse Cris.
O trio masculino subiu rapidamente até o último andar, para pegar as armas e, em seguida, ir vasculhar o local de onde vinham tantos gritos. Os gritos já estavam chamando a atenção de muitos zumbis que estavam nas ruas de Washington. Eles batiam sem parar nas portas de vidro, que eram potentes, mas não para sempre. Se o grupo não descobrisse logo a razão dos gritos, milhares de zumbis invadiriam o shopping. Ricksonn percebeu que os gritos vinham da sala de cinema do shopping. Anderson começou a caminhar na frente, mas foi puxado para trás por Ricksonn.
- Você ainda não percebeu, imbecil? Eu sou o líder do grupo! Respeite-me! Eu vou na frente. - Anderson não gostou muito do que Ricksonn fez, mas não queria causar conflitos. Pelo menos não naquele momento.

Entraram na sala de cinema. Os gritos pararam por alguns minutos. Mas foi apenas Ricksonn chegar mais para dentro das poltronas que foi surpreendido com uma vassourada na cabeça.
- Sai! Sai! Sai! O diabo vai te pegar! Ele sempre nos pega. O céu choveu canivetes hoje, sabia? Maria? Cadê Maria? Você matou Maria? - um homem maluco falava coisas sem nexo para o grupo. Ricksonn mirou a arma para o homem, mas uma mulher correu na frente do senhor estranho.
- Não atire! Ele é meu pai! Ele sofre de esquizofrenia! Desculpem-me! Estou desesperada! Estávamos eu, meu pai e minha mãe assistindo a um filme, quando vários policiais entraram gritando para sairmos do shopping. Mamãe conseguiu sair, mas meu pai, Alex, acabou ficando para trás. Eu voltei para buscá-lo, mas acabei caindo. Acho que bati a cabeça e acabei desmaiando. Eu sofro de síndrome do pânico, e quando acordei nesta escuridão, sozinha, não parei de gritar. Obrigada por virem nos salvar! O que aconteceu? Ah, e perdão! Me chamo Brenda. Brenda Zyllier. - a garota apertou a mão de Anderson. A garota aparentava uns quinze anos. Quando Ricksonn iria falar a garota sobre o que de fato estava acontecendo, mais gritos foram ouvidos. Desta vez, era o grupo de sobreviventes que gritava sem parar "Socorro!", "Eles entraram! Eles entraram!". Todos correram para de volta com o grupo. O homem esquizofrênico demorava um pouco mais, mas também corria. Era visível que muitos zumbis entraram no shopping. Todo o grupo se encontrou no quarto andar do shopping. Brenda ficou perplexa ao ver aquelas criaturas subindo as escadas rapidamente, sedentos por carne. Anderson explicou de forma simples e rápida o que estava acontecendo para a garota.
- Como iremos escapar deles? - Horina estava a beira de um ataque cardíaco. Sofria de problemas no coração e não aguentaria tamanha emoção.
- A sala de cinema é segura. Tem saídas especiais, para o caso de incêndio. Mas elas somente são abertas se houver indícios de fogo. Precisaremos atear fogo no cinema se quisermos escapar! - disse Brenda. Mattheus ficou fissurado pela beleza da garota. Ela falava muito bem e parecia ser muito simpática. Mas William bateu em seu ombro, fazendo acabar seus pensamentos.
- Eu tenho um isqueiro! Vamos lá! Corram todos para o cinema! Eu irei na loja de vinhos, pego uma garrafa e já vou até vocês! Corram! - Ricksonn tinha jeito para líder. Saiu em busca da garrafa, sua namorada tentou ir junto com ele, mas Cris não deixou. Todos chegaram rapidamente na sala de cinema.
- Como é que este homem ainda arranja tempo para beber? - perguntou Alex, que tinha uma voz grossa e fanha, ao mesmo tempo. Ninguém o respondeu, todos já haviam percebido que ele tinha problemas mentais.
- Meu Deus, proteja meu namorado! Ele está demorando demais! - Jenny estava histérica, preocupada com Ricksonn. Logo, o líder do grupo chegou.
- Fechem a porta! Eles estão perto! Vou iniciar o incêndio! - Anderson, Cris e Felippo seguravam a porta com força. Mas não aguentariam por muito tempo. Ricksonn jogou vinho nas poltronas e acendeu o isqueiro. O fogo iniciou rapidamente. Sirenes alertavam o incêndio. Portas começaram a se abrir. O grupo começou a correr sem parar. Até mesmo Luciana, que estava com a perna machucada, conseguiu correr rápido. Alex ficou um pouco mais para trás e acabou tropeçando no caminho. Brenda começou a gritar desesperadamente. Mattheus percebeu que era sua chance: se salvasse o pai da garota, ganharia pontos com ela e com o resto do grupo, que pensavam que ele era um assassino. Mattheus correu até o homem e puxou-o pelo braço. Um zumbi tentou morder o braço de Alex, mas felizmente não teve sucesso. Todos passaram pela porta de saída e corriam ainda mais. No final, tinha um elevador, com as portas abertas, a espera do grupo. Todos conseguiram entrar, o elevador era grande. Mas a porta não fechava por nada. Talvez os sensores alertavam que mais pessoas estavam chegando para entrar no elevador. Mas os sensores não sabiam que estas pessoas eram zumbis.
- O que faremos? As portas não irão se fechar! - disse Luciana, a escritora.
- Pessoal, todos se segurem! Iremos ter uma grande queda. - disse Ricksonn, enquanto mirou uma metralhadora para o teto do elevador. Disparou. Os tiros acertaram os cabos de aço que seguravam o elevador. A porta não se fechou, e o vento durante a queda sugava para fora quem estava lá dentro. Todos se seguravam muito forte. Mas, infelizmente, Romuel, o senhor idoso, soltou-se da mão da esposa e acabou sendo puxado para fora do elevador. Sua pele se juntou na parede que revestia o shopping, e começou a ser rasgada aos poucos. Muito sangue era jorrado em todos. Horina gritava pelo marido, que já estava sem vida. Foi consumido pelo elevador. Finalmente o elevador parou de cair. A queda foi grande, mas ninguém teve machucados muito graves. Todos saíram rapidamente. Horina estava em estado de choque. Não sabia o que fazer. Desabou em choro, enquanto caía de joelhos no chão.
- Por que, meu Deus? Por quê? Um homem tão bom! - Horina estava, realmente, desiludida.

- Senhora, precisamos sair daqui! Estamos no estacionamento do shopping, em breve os zumbis estarão aqui! Pessoal, vão para perto dos carros. Eu dirigirei um e Cris outro. Escolham com quem ir agora! Eu irei na frente, pois conheço melhor Washington. - gritava Ricksonn, que correu para perto de uma caminhonete de cinco lugares. Cris correu para um carro moderno, com sete lugares. Anderson e Ketlyn ajudaram Horina a entrar no carro de Cris. Luciana, Brenda e seu pai também foram com Cris. Mattheus, William, Jenny e Felippo foram com Ricksonn. Os carros saíram rapidamente da garagem, com Ricksonn indo na frente. Não sabiam para onde ir. Apenas sabiam que tinham de ir para bem longe. Horina não parava de chorar pela perda do marido. Brenda acalmava seu pai, que falava coisas sem nexo novamente. Mattheus pensava em Brenda. Todos estavam com medo. 


Continua...

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