Episódio 2: DISTANCIAMENTO
-Fazenda dos Grindd, 7km do Laboratório ALFA, Wingstonn, 21/10/2015, 22h41min-
Anderson Grindd era um ótimo fazendeiro. Tinha uma esposa ótima e dois filhos (Alice Grindd, Félix Grindd, o caçula, e Will Grindd). Mas nem tudo eram flores. A seca de Wingstonn já era enfrentada a dois meses, e a política corrupta da cidade não tentava mudar nada. A família já não tinha muito dinheiro, mas também não passavam fome. A criação de galinhas era o que salvava a economia dos Grindd. Sempre quando Anderson ia ao centro da cidade com sua Caminhonete Ford F-350 para vender seus produtos rurais, passava em frente ao Laboratório ALFA. Sempre ficava surpreso pela grandiosa estrutura que aquela empresa tinha. - Já está tarde amor! Vamos dormir? Já coloquei as crianças na cama. - disse Alice ao marido, que estava assistindo televisão. - Sim, vamos. Esta quarta-feira foi de matar! Estou muito cansado! - Anderson foi andando em direção a mulher enquanto falava. Deu um beijo no rosto dela e foi ao banheiro, para escovar os dentes. Anderson aparentava ter uns 30 anos, mas já tinha 42. Alice seguiu ao marido até a porta do banheiro, onde encostou a cabeça na parede. - Sei que tudo está sendo difícil, Anderson. Mas tudo vai passar. Esta seca... - "NOTÍCIA URGENTE! NOTÍCIA URGENTE!" - A televisão que ainda estava ligada interrompeu Alice. Sempre que tinha uma notícia muito importante, o canal local de Wingstonn entrava ao vivo, independentemente do que estava passando. Anderson e Alice foram rápido para a sala, ele com a escova dental na boca, cheia de espuma. - "Boa noite a todos! Eu, Ketlyn Moura, venho informar-vos sobre uma notícia urgente! Um fazendeiro ainda desconhecido diz ter visto uma multidão de cientistas saindo do Laboratório ALFA. Todos pareciam muito alterados, segundo o fazendeiro. O homem ainda afirmou que alguns cientistas que o viram começaram a ir em direção a ele, querendo atacá-lo! Por sorte, o homem conseguiu fugir. Estamos aqui, em frente ao laboratório. Tudo indica que ele foi abandonado. Os policiais que estão aqui já informaram que todos os habitantes da cidade, especialmente os residentes que moram perto do laboratório, tranquem suas casas e fiquem nelas até novas informações! Os cientis... tis..." - o áudio da jornalista tornou-se vozes distorcidas e impossível de entender algo. Alice desligou a televisão. - O que será que houve no laboratório? Aquilo era sempre tão movimentado... - É, algo muito estranho aconteceu. Alice, tranque as portas e janelas. Eu vou ver as crianças. - Está bem. Anderson e Alice foram deitar. Depois que o fazendeiro viu os filhos dormindo como anjinhos, percebeu que tudo estava bem na casa. Alice deu mais um beijo no marido, disse que tinha certeza que quando a seca acabasse, tudo voltaria a melhorar. Disse também que o amava, e percebeu que havia igual recíproca do marido. -Fazenda dos Grindd, Wingstonn, 22/10/2015, 02h13min- Anderson ainda não tinha conseguido pregar o olho. Estava pensando sobre o que poderia ter acontecido no laboratório. Ficava tentando saber quem era o homem que tinha visto os cientistas correndo. Quem saber era o Sr. Lettwan, um alemão que não gostava de crianças, mas era boa gente. Já tinha uns 60 anos, e andava com a ajuda de uma bengala. Anderson pensou maliciosamente que ele só deve ter conseguido fugir se estivesse de carro, pois com apenas a bengala o coitado não teria o mesmo sucesso. Quando Anderson começou a dormir, ouviu uma movimentação no galinheiro, que deixou as galinhas muito agitadas. Cacarejavam com um tom de desespero. Alice também acordou, olhou para o lado e já viu Anderson vestindo uma calça. - Aonde você pensa que vai, amor? - As galinhas estão alteradas! Pode ser uma raposa. Não posso deixar que algo acabe com o nosso único sustento! - foi em direção ao guarda-roupa e pegou uma espingarda velha. Colocou alguns cartuchos e abriu a porta do quarto. - Você está doido? Não ouviu o que o jornal disse na televisão? Não saia! Por favor! - Fique aqui, Alice! Ou melhor, vá para o quarto dos garotos. Não faça barulho! Eu já volto! - Alice sabia que não podia tirar aquela ideia maluca da cabeça do marido. Levantou-se e foi em direção ao quarto dos filhos. Anderson já havia matado muitas raposas na fazenda. Caso fosse uma, em alguns minutos ele já estava dormindo com a esposa novamente. Tudo estava muito escuro naquela noite. Se houvessem umas cinco estrelas no céu, já eram muitas. A agitação no galinheiro já tinha parado. Anderson se desesperou quando viu o portão do galinheiro aberto. Muitas estavam correndo pela fazenda, algumas ainda estavam em seus ninhos. O portão não era difícil de abrir, mas para uma raposa era impossível. Anderson tinha certeza que não era uma raposa a culpada pelo alvoroço. Depois de alguns minutos, Anderson conseguiu colocar muitas galinhas de volta ao galinheiro. Mas muitas também tinham fugido para a mata fechada. Pensou para si mesmo que logo que amanhecesse iria procurar o resto das galinhas na floresta, pois sabia que mesmo que já estivessem mortas, seriam úteis para servirem de alimento. Mas algo aterrorizante interrompeu os pensamentos de Anderson: a mulher e os filhos gritavam por socorro desesperadamente. Chamavam por Anderson. Ele não pensou em outra coisa, correu muito até voltar para a casa. Viu que a porta da entrada estava aberta. Ele não lembrava se tinha deixado-a entreaberta, mas isto não teve muita importância. Quando chegou no quarto dos filhos, a mulher estava deitada no chão, tentando tirar uma criatura de cima dela. Com certeza era um cientista, pensou Anderson, pois estava vestido como um. - Afaste-se de minha mulher! Ou terei que atirar! - a criatura olhou para o homem. Anderson viu que sua boca escorria sangue. Os olhos estavam com um tom estranho de roxo. O "cientista" voltou sua atenção para Alice novamente. Anderson deu um chute tão forte que a criatura se bateu na parede e, aparentemente, desmaiou. - Foi tudo tão rápido, amor! Meu Deus! Logo que você saiu, ele entrou... - Alice dizia tudo tão rápido que Anderson quase não a entendia. - Acalme-se! Onde estão as crianças? Por que este cientista tinha sangue na boca? Ele te mordeu? - Anderson estava apavorado, fazia perguntas sem pensar. - Não, não me mordeu. Ele mordeu o Félix. Pedi para que Will leva-se o irmão ao banheiro para lavar o ferimento no braço dele. Quando ele mordeu o Félix, eu dei um soco nas costas do cientista. Foi aí que ele virou-se para mim, e me atacou! Anderson pegou na mão da mulher e a levantou. Os dois foram ao banheiro. - Mãe, desculpe! Eu estava lavando o braço do Félix, mas ele não parava de chorar. Ele acabou desmaiando. - enquanto Will ia falando, Alice e Anderson foram ver o filho caçula, que estava desacordado na banheira. - Félix, Félix! Filhinho, acorda! - Alice falava com o filho, dando tapinhas em seu rosto. Félix abriu os olhos. - Mamãe! Dói muito, mamãe! - Félix tinha cinco anos, e começou a chorar muito. O braço do garoto não parava de sangrar. A mordida tinha feito um estrago terrível. - Vou ligar para a polícia! - disse Will, que já se achava o homem da casa. Tinha dezesseis anos. - Não vai sozinho! Todos vamos para a sala! - disse Anderson, pegando Félix no colo. Quando chegaram na sala, Alice foi trancar a porta da entrada, Will ficou com o irmão no sofá, tentando consolá-lo, e Anderson tentava ligar para a polícia, sem sucesso. As linhas telefônicas estavam mudas. Algo terrível tinha acontecido. A energia da casa já não mais funcionava. Estavam apenas com as luzes de velas. Antes de Anderson ter ido para a sala, foi ao quarto dos meninos, para ver como estava o cientista. Ele parecia ainda desacordado, deitado com o rosto virado para o chão. Assim, Anderson trancou por fora o quarto, para evitar que o homem que atacou sua família fugisse. Todos já estavam na sala, unidos pelo medo, quando a porta do quarto onde estava a criatura começou a tremer. O cientista batia forte, tentando sair dali. Seus gemidos mais pareciam rosnadas de um lobo quando come um animal morto. Anderson disse a família que não precisavam ter medo, o homem não tinha como sair daquele quarto. Félix estava queimando em febre. - Pai, temos que levar Félix para um hospital! Ele está muito mal! - disse Will, passando um pano molhado na testa do irmão. Alice segurava o choro enquanto olhava o filho em seu colo. As batidas no quarto onde estava o cientista não paravam, deixando Anderson ainda mais atordoado. - Vamos sair daqui! - disse Anderson. Pegou a chave da caminhonete que estava ao lado da televisão e colocou no bolso. A espingarda ainda estava em sua mão. Todos iam seguindo o fazendeiro em direção a saída da casa. Quando abriram a porta, levaram um susto maior ainda: uns cinco cientistas estavam andando pela fazenda. Um deles correndo atrás de uma galinha que ainda estava fora do galinheiro. - Eles não são humanos, pai. Pelo menos, não são mais. É melhor você usar sua arma para sairmos daqui! - dizia Will, incentivando o pai a atirar nas criaturas. - Está doendo! Está doendo! - Félix gritou alto, e começou a tremer todo. Os cinco cientistas olharam imediatamente para a família. Estavam indo em direção a eles. - Atira pai! Atira! - Não, amor! Pode ser que eles apenas estejam malucos! Vamos voltar para casa e nos trancar novamente! Você pode ser preso se matá-los! Anderson não sabia o que fazer. A pressão era muito grande. E as criaturas estavam cada vez mais perto. - Então eu mesmo faço isto! - Will tomou a espingarda das mãos do pai, e mirou no cientista que estava mais perto. A mãe, com Félix no colo, gritava para o outro filho parar. Anderson ficou paralisado, não sabia mais o que deveria fazer. Will foi mais para frente, atirou na barriga de um dos cientistas, que voou longe com o disparo. Os gritos da mulher tiraram Anderson do transe. Quando Will ia dar o segundo tiro, Anderson segurou o braço do filho. - Pare! Não está vendo que você pode estar matando pessoas inocentes? - Me solte! Ele atacou meu irmão, você não percebe que eles são do mal? Enquanto os dois discutiam, os cientistas se aproximavam mais e mais. Até que Alice ouviu algo quebrar-se lá dentro de casa. Era a porta do quarto dos filhos. A criatura que lá estava conseguiu sair, e estava indo em direção a Alice. Will conseguiu soltar seu braço, mas Anderson pegou a arma. Um dos cientistas conseguiu morder o pescoço de Will, quando estava indo para trás. O pai finalmente se tocou que aqueles homens não eram mais pessoas normais. - Nããããooooo! - gritou a mulher, que saiu correndo em direção a Will. O adolescente conseguiu escapar de outra mordida da criatura, mas seu pescoço sangrava muito. - Malditas criaturas! - gritou Anderson, mirando para a cabeça do cientista que atacou seu filho. Disparou. A cabeça daquele "monstro" parecia uma união de infecções. Tinha muito pus, e o sangue que saía tinha uma cor mais forte do que o normal. Mas ainda haviam outros cientistas em volta da família e parecia que aos poucos vinham mais e mais. - Corram para a caminhonete! Vou atirar nestes que estão mais perto, para que cheguem lá sem serem atacados! O desespero foi grande. Alice chorava ao ver o filho em seu colo desmaiado de dor e o outro mal conseguindo correr, tentando parar o sangue com a mão no pescoço. Muitos zumbis tentaram mordê-los até chegarem na caminhonete, mas a mira de Anderson sempre foi certeira. Aprendeu desde criança, com o pai, como segurava uma espingarda. Quando a mulher e os filhos chegaram no carro, Anderson saiu em disparada até eles. Pegou a chave que tinha no bolso e destravou as portas. Todos entraram. Aquele zumbi que estava trancado no quarto e conseguira se libertar alcançou o carro e ficou na frente do mesmo. Anderson apenas pisou no acelerador, fazendo o ex-cientista ser jogado para longe. Agora Anderson sabia que sua fazenda estava acabada. E não foi por causa da seca. Passaram-se alguns minutos, e a família estava quase chegando perto do Laboratório ALFA. Durante a pequena distância que haviam percorrido, Anderson notou o cenário de destruição nas fazendas vizinhas. Muitos gritos ecoavam das montanhas próximas. Algumas casas estavam em chamas. Encontraram muitos cientistas e funcionários do laboratório andando pela estrada, lentamente, como se estivessem hipnotizados. Logo depois que Will entrou no carro, desmaiou. Félix começou a tossir sem parar, mas não abriu os olhos. Seu corpo tremia muito. Alice pensava que era por causa da febre. Mas não era. - Para qual hospital vamos, Alice? - Vamos ao mais próximo possível. Sei que é o Hospital Rural de Wingstonn, o pior da cidade, mas não tenho como fazer Félix e Will esperarem tanto! O Hospital Estadual é muito longe daqui! - Tem razão. - Anderson pisou ainda mais no acelerador, mas somente mudou o som do ronco do motor, já que a caminhonete era velha e não tinha mais tanta força para correr rapidamente. Félix deu uma tossida tão forte que soltou um pouco de sangue em Alice. Félix abriu os olhos. - Graças a Deus você acordou filho! Você está... Aaaahhhhh! - Alice foi interrompida quando o filho atacou-a. Começou a mordê-la no pescoço. Estava com uma força incontrolável. Suas mandíbulas mais pareciam um triturador. Alice não parava de gritar por socorro. Ela e os filhos estavam no banco de trás da caminhonete, e Anderson parou o carro imediatamente. Saiu do carro e foi correndo abrir a porta de trás, para socorrer a mulher. Mas já era tarde demais. Quando abriu a porta, Anderson surpreendeu-se: Will também juntou-se ao banquete do irmão. Quando os irmãos viram que Anderson estava parado, perplexo, vendo-os comerem a própria mãe, pararam de atacá-la e focaram no pai. Anderson agiu sem pensar. Levantou a espingarda. Will tentou morder seu braço, mas levou um tiro na cabeça. Félix também tentou atacá-lo, mas teve o mesmo final que o irmão. Seu mundo desmoronou. Caiu de joelhos no chão, abaixou a cabeça. Lágrimas começaram a cair sem parar. Ficou alguns minutos num silêncio mórbido. Não importava mais nada a ele. Tudo havia acabado. Anderson parou de chorar. Levantou-se, fechou os olhos. Pegou a espingarda e deixou apontada sob o queixo. Quando ia atirar, ouviu um gemido. Sabia que era a mulher. Sabia que ela já estava igual aos cientistas. Olhou para ela, que ainda estava no carro. Ela o olhou também. Parecia que ela estava chorando também, parecia que estava tão triste quanto o marido. Ela não conseguia se mexer, pois estava presa ao cinto de segurança. Os gemidos não paravam, e fizeram Anderson chorar ainda mais. - Por que Alice? Por quê? - Anderson não queria mais assistir aquela cena terrível. Não queria mais ver o sofrimento da mulher. Olhou na espingarda quantos cartuchos ainda tinha. Apenas um. Suicidava-se para acabar com seu sofrimento, ou matava a mulher para acabar com o dela? Não quis ser egoísta naquele momento. Ergueu a espingarda. Mirou na cabeça de Alice. - Perdoe-me... - Mais lágrimas caíram. O estrondo do disparo foi tão alto que Anderson perdeu os sentidos da audição por alguns instantes. Mas pelo menos Alice não sofria mais. Os disparos da espingarda eram tão barulhentos que atraíram alguns zumbis que estavam dentro da floresta. Anderson só pensou em vingança. Queria se vingar daquelas malditas criaturas que tinham acabado com sua família. Para isto, ele precisava sobreviver. E, para sobreviver naquele momento, deveria fugir, pois a espingarda já não mais tinha munição. Começou a correr para dentro do mato, deixando tudo para trás. Corria tanto que nem percebia onde pisava. Já tinha despistado os zumbis, não eram muitos. Mas não parou de correr. Inesperadamente, suas pernas cambalearam, fazendo-o cair. A mata era íngreme, e Anderson não parava de deslizar. Até que bateu com a cabeça num tronco de um pinheiro. Desmaiou na mesma hora. Até parecia que estava morto. -Local desconhecido, Wingstonn, 22/10/2015, 09h02min- Anderson abriu os olhos. Sua cabeça doía muito. Estava deitado, mas não sabia onde. Parecia uma maca, pois não era muito confortável. Não conseguia se mexer, tudo doía muito. Sua cabeça doeu ainda mais quando alguém com bengala usou-a para cutucar Anderson. - E então homem, vai dormir o dia inteiro? - disse o dono da bengala, com uma voz um tanto quanto familiar. Continua... |