-Batalhão
do Exército Militar, Wingstonn, 24/10/2015, 00h42min-
Anderson entrou em paranoia. Avistava zumbis em todos os lugares, muitos
estavam quase conseguindo subir no tanque de guerra e Ketlyn ainda não havia
aparecido. Estavam esperando por alguns minutos a jornalista aparecer. Talvez
ela não estivesse chegando perto do local onde haviam combinado porque tinham
centenas de zumbis ao redor do carro de combate. Anderson estava com a cabeça
nas nuvens, não estava percebendo que alguns zumbis já estavam em cima do
tanque. Felizmente, Guilherme puxou a perna de Anderson e fechou a porta,
evitando a entrada dos zumbis. Anderson voltou a si.
- Precisamos ir atrás de Ketlyn! Ela deve estar perdida, deve estar em pânico!
- Anderson andava para os lados, falando como sem parar.
- É loucura sairmos daqui, Anderson! Iremos arriscar todo o nosso plano por uma
garota? Garanto que você gosta dela! Até eu estou começando a gostar, com
aqueles peitões que ela tem, quem não iria gostar dela? E, aliás... - Guilherme
foi interrompido com um forte murro que Anderson acertou em seu rosto. Caiu
para trás, quase desmaiado. - Você está doido, cara?
- Cale a boca, seu imbecil! Não percebe a gravidade da situação! Se ninguém me
ajudar a procurar Ketlyn, eu irei sozinho. E vocês sabem que daqui ninguém sai
sem mim, já que apenas eu sei controlar a pörra deste tanque! - Anderson
estava, novamente, fora de si. Tremia de raiva e de medo. Ele não queria
perder, mais uma vez, alguém tão especial que encontrara. Anderson sabia que
gostava muito de Ketlyn. Muito mesmo.
- Eu vou junto com você, Anderson! - Mattheus levantou-se, com uma voz trêmula.
Não sabia como tinha conseguido coragem para falar aquilo.
- Nem pensar! Você e Raquel não tem condições de virem me ajudar. Sei que a
intenção é boa, mas é arriscado eu levá-lo! É mais seguro você ficar. Guilherme,
você vem me ajudar?
- Se eu disser que não, você vai me dar um outro soco na cara? - Anderson
respondeu com um olhar de reprovação. - Tudo bem, tudo bem. Eu iria dizer que
sim!
- Muito bem, então. Vamos pegar as armas, pois vamos precisar muito. Raquel,
cuide de Mattheus, tudo bem? E não saiam daqui de forma alguma! Entenderam? -
disse Anderson, enquanto colocava na cintura uma grande faca.
- Sim, claro! Boa sorte para vocês! Irei orar para que tenham sucesso na busca!
Deus não deixou de me escutar nunca, por que iria deixar-me agora? - Anderson
agradeceu a hospitalidade de Raquel. Abriu rapidamente a porta que ficava no
topo do tanque. Atirou em alguns zumbis que estavam perto demais, ajudou
Guilherme a sair e fechou a porta. Raquel e Mattheus ouviam os tiros que eram
disparados sem parar. Conseguiram perceber que os dois já haviam conseguido
descer do tanque. Raquel estava de joelhos. Logo depois, levantou-se, limpou o
vestido que sujara com o pó, enquanto estava ajoelhada, e sentou-se ao lado de
Mattheus.
- Tomara que voltem logo. Não vejo a hora de sairmos daqui. - disse Raquel, com
uma voz de tom ríspido.
-Avenida Adultery Lowtern, próximo ao Colégio Stinguelford, Wingstonn,
24/10/2015, 00h59min-
Guilherme já estava cansado de tanto andar. Não haviam caminhado muito, mas em
alguns poucos metros, Guilherme já estava exausto. Durante o caminho, gritaram
pelo nome de Ketlyn inúmeras vezes, o que fazia atrair ainda mais zumbis. Mas
havia muita munição, e os dois eram muito bons na mira.
- Chega, preciso descansar! Eu sou um grande executivo, não um atleta, como a
Ketlyn. Eu nunca havia andado mais de dez passos numa calçada! Eu só andava em
carros de luxo. Você não deve saber o que é isto.
- Não sei mesmo. Você é muito metido, Guilherme. Vamos, levanta! Precisamos
encontrar uma pista do paradeiro de Ketlyn. - Anderson puxou a gravata dourada
de Guilherme, que arrumou-a como estava antes. Saiu resmungando, mas logo
apareceram mais zumbis. Acabaram com todos.
- Não adianta, Anderson. Ketlyn já deve estar num lugar bem melhor do que aqui.
Quem mandou ela querer chamar a atenção de todos aqueles zumbis? Ela já deve
ter virado prato principal para estes desmiolados. E se continuarmos aqui, nós
seremos a sobremesa.
- Você quer que eu acabe com o resto do seu rosto? Acho que não. Então cale
esta sua boca e tente fazer algo de útil! Não estou obrigando-o a vir comigo.
Se quiser, volte para o tanque de guerra. Talvez seja melhor...
- Aaaaahhhhhhh! Aaaaahhhhh! - um grito feminino altíssimo interrompeu Anderson.
Poderia ser Ketlyn! O grito ecoava pelas ruas, chamando muita atenção dos
zumbis. Era percebível que os berros vinham do Colégio Stinguelford.
- Só pode ser a Ketlyn! Precisamos correr! - Anderson conseguiu uma energia
inexplicável. Correu muito rápido, em direção ao colégio. Guilherme vinha logo
atrás.
Chegaram até o portão do colégio, que era enorme. Estava trancado com dois
grandes cadeados, mas dois tiros foram o suficiente para abrir o portão. Os
gritos que vinham de dentro da escola paravam e voltavam sem parar. Guilherme
falava com muito pessimismo: "E se não for a Ketlyn?", "Garanto
que não é ela, imagine se ela tem esta voz tão grossa!". Anderson não
ouvia uma palavra que o empresário dizia. A porta principal do colégio estava
arrombada, facilitando a entrada da dupla. Os gritos começaram a aumentar
freneticamente. Alguns vultos passavam rapidamente por Anderson. Barulhos
estranhos eram ouvidos a todo momento. Encontraram as escadas que levavam ao
próximo andar. Começaram a subir, atenciosamente. As escadas estavam cheias de
rastro de sangue, os corrimões pingavam uma gosma estranha. Guilherme olhava
tudo aquilo e ficava muito enojado. Anderson subiu rapidamente a escadaria. O
segundo andar estava muito escuro. Anderson encontrou uma lanterna caída no
chão, cheia de sangue. Limpou em suas roupas e ligou-a. Felizmente, estava
funcionando. Os gritos ainda ecoavam, então deviam estar vindo do terceiro e
último andar. Mas as escadarias que levavam ao último andar estavam bloqueadas
com muitos entulhos. Era perca de tempo tentar subir por ali.
- Eu vi que, por fora da escola, tem uma escada externa. É só entrarmos em uma
das salas de aula e sairmos pela primeira janela possível. - Anderson percebeu
que Guilherme não gostou nada da ideia, mas estava nem aí para ele. Guilherme
não complicou as coisas, e foi logo atrás de Anderson. O fazendeiro chegou até
uma porta, a sala da sétima série, e abriu aos poucos. A lanterna ajudou muito
para verem o que tinha lá dentro. Os dois ficaram pasmos com o que estavam vendo:
crianças comiam partes de alguém, no chão. Todas pararam e olharam para a
dupla, quando Anderson abriu a porta.
-Batalhão do Exército Militar, Interior do Tanque de Guerra Wingstonn,
24/10/2015, 01h16min-
Raquel não parava de rezar. Mattheus já estava com muita dor de cabeça. Era
"Pai Nosso" para cá, "Creio" para lá. O adolescente acabou
se lembrando da igreja. Sua mãe, Helliot, sempre desejou que Mattheus fosse
padre. Ela também era muito católica, mas não como Raquel. Helliot foi uma mãe
nova, era bela, com cabelos louros longos. Sua pele era clara, não tinha marcas
de nascença no rosto e seus lábios eram perfeitos. O pai de Mattheus abandonou
a família quando ele ainda era bebê, por isso só considerava sua mãe como
família. Mattheus adorava ir à igreja com a mãe. Mas não era uma vida como
padre que ele queria. Na última vez em que Mattheus viu a mãe, foi quando saiu
de casa para ir à escola. Mas eles haviam discutido antes, tudo por causa do
desejo da mãe em colocar a vida do filho no caminho de Deus. Mattheus lembrou
que a última coisa que ele fez antes de sair foi pegar a mochila, que estava
sobre a mesa, e colocar dentro dela o lindo cachecol que ganhara da mãe. Saiu
sem dar um adeus que fosse para Helliot e ainda pensou como teria sido melhor
se ela não fosse sua mãe. Agora ele estava muito arrependido. Começou a chorar
sem parar, um choro que demonstrava saudades, culpa e mágoas. Raquel parou de
rezar e olhou para Mattheus.
- Um garoto desse tamanho desabando em lágrimas? Pare já com isso! Está me
dando nos nervos! - Mattheus olhou para ela e limpou o rosto. - Já basta
estarmos esperando aqui por aquela mulher que não tem Jesus no coração. Não
preciso aguentar chororô de criança mimada.
- Eu já parei de chorar. Eu só estava lembrando de minha mãe. Onde ela deve
estar agora? Será que ela está bem?
- Por que você não dá uma de super-herói, como o Anderson, e vai atrás da sua
querida mamãe. Eu acho que seria perda de tempo, ela deve ser um zumbi que nem
esses que estão aí fora. Talvez até já tenhamos atirado nela, e você nem viu! -
Mattheus levantou-se em direção a Raquel. Levantou a mão para acertar em cheio
um tapa em seu rosto. Mas Raquel foi mais rápida, e segurou seu punho. - Não
acredito! Só o que me faltava! Apanhar de um veadinho retardado. Saia de perto
de mim, não aguento conviver com um gay por muito tempo! Deus fez apenas o
homem e a mulher! Vocês são o diabo em forma de pessoa!
- Eu não sou um homossexual, sua beata desgraçada! E minha mãe não está morta!
Quem está morta, e você sabe muito bem, é sua irmã! Foi você mesma quem a
matou! Sua assassina! Reze a Deus para que Ele tenha piedade de uma mulher como
você! Se quer saber, você tem uma alma muito mais impura do que sua irmã tinha.
Estella era um anjo, comparada a você! - Raquel levantou-se e deu um tapa muito
forte no rosto do garoto. A marca de seus dedos ficou impressa no rosto de
Mattheus. Ele voltou para seu cantinho, e sentou de costas para Raquel. Ele
estava, realmente, vermelho de raiva. Estava com a mesma raiva de quando matou
acidentalmente Rowl Anster.
-Colégio Stinguelford, Wingstonn, 24/10/2015, 01h18min-
As crianças começaram a ir em direção a Anderson. Era muito triste aquela cena,
em que várias crianças inocentes estavam pagando por causa daquele maldito
laboratório, por causa daquele maldito George. Muitas estavam com o uniforme da
escola. As coisas estavam terríveis naquele momento. Anderson e Guilherme
saíram correndo, fugindo das crianças zumbis. A sensação era desesperadora.
Anderson lembrou de quando havia atirado em seus próprios filhos. Não queria
fazer aquilo de novo. Não queria matar crianças, mesmo que já estivessem
mortas. Guilherme percebeu como Anderson estava tenso. Então virou-se e começou
a atirar nas crianças. Anderson parou de correr. Não quis virar-se para ver
aquela cena. Todas as crianças, que não eram muitas, estavam caídas no chão. O
sangue de cor forte escorria pelo piso da escola. Anderson e Guilherme tinham
que voltar para a sala onde estavam, para subir até o último andar. Anderson
passou com um sentimento de culpa. Querendo ou não, foi ele que disseminou o
vírus na cidade, quando estava no esgoto e deixou os zumbis passarem. Mas agora
não tinha volta. A única coisa que tinha de fazer era encontrar Ketlyn.
Entraram na sala escura novamente, Guilherme abriu a grande janela. Anderson
foi até a pessoa que estava no chão, sendo comida pelos zumbis, para verificar
se não era Ketlyn. Felizmente não era. Aquele indivíduo estava com uniforme da
escola. Ambos começaram a subir a escada. Chegaram em outra janela, que já
estava aberta. Pularam para dentro da sala. Estavam no último andar,
finalmente. Os gritos da mulher haviam parado por um tempo, mas agora
aumentaram incessantemente. Vinha da sala ao lado. Correram até lá. A esperança
de que era Ketlyn só aumentava para Anderson. Guilherme tentou abrir a porta,
mas estava trancada.
- Eu tranquei a porta! Por favor, arrombem-a e me ajudem! Aaaaaaaahhhh! - a
mulher gritou ainda mais quando viu que alguém estava ali para ajudá-la.
Anderson percebeu que a voz não era de Ketlyn. Mas tinha que ajudar a mulher
que estava lá dentro. A dupla arrombou a porta e flagrou uma cena um tanto
quanto diferente: a mulher estava dando luz a um bebê! Ela estava deitada sobre
uma mesa de professor, com o rosto totalmente molhado de suor. Guilherme
percebeu que a perna da mulher estava cheia de sangue.
- Por favor, me ajudem! Aaahhh! Meu nome é Celyna, eu vim aqui, de tarde, para
buscar meu filho da escola, mas aqui estava um transtorno. Acabei perdendo meu
filho para um bando de crianças que atacou ele. Aaaahh! Aqui foi o único lugar
que consegui achar para ficar a salvo. Meu querido filho eu perdi, não quero
perder mais este! Entrei em trabalho de parto agora pouco, me ajudem a puxar a
cabeça dele! Por favor! Aaaaaaaaaaahhhh! - o último grito foi mais
desesperador. Guilherme conseguiu ver pela janela que uma multidão de zumbis,
que estavam lá fora, começou a entrar na escola. Os gritos da mulher grávida
eram como uma sirene, que chamava os zumbis para dentro do colégio. A cabeça do
bebê começou a aparecer. Guilherme segurava a boca de Celyna para que os gritos
não fossem tão altos e Anderson puxava a pequena cabeça do bebê. Tudo foi muito
rápido. O bebê não chorou quando saiu do ventre da mãe.
- Por que ele não está chorando? Diga que eles está vivo, senhor, por favor!
Diga! - Anderson deixou a pequena criança recostada numa carteira da sala.
- Infelizmente, moça, ele nasceu sem vida. Acho que ele ficou muito tempo
dentro de você. Minhas sinceras desculpas, não pude ajudá-la. - a mulher
começou a gritar sem parar. Chorava ao mesmo tempo. Guilherme tentou calá-la,
mas Anderson achou melhor que não o fizesse. Vários zumbis apareceram na
entrada da sala onde o grupo estava. Celyna mal conseguia se mexer.
- Vamos fugir daqui, Celyna! Eu posso pegá-la no colo! - disse Anderson,
enquanto Guilherme atirava nos primeiros zumbis que entravam na sala.
- Não. Deixe-me aqui! Sem meus filhos eu não sou nada. Prefiro a morte. Mas não
quero morrer como um frango sendo comido por aquelas criaturas. Por favor, me
façam um último desejo! Me matem, por favor! - Anderson percebeu que a mulher
estava sofrendo muito. Não tinha outra escolha. Tinha de ajudá-la, como ela
queria. Apontou a arma para sua cabeça e disparou. A munição de Guilherme já
estava acabando, os zumbis não paravam de aparecer. Estava na hora de saírem do
colégio. Os dois começaram a descer as escadas externas. Elas iam até o térreo.
- Desculpe, Anderson, mas não vamos encontrar Ketlyn deste jeito! Gastamos
quase toda a nossa munição. Sei que é triste, mas precisamos ir! É questão de
tempo para que George descubra que nós estamos indo para o Farol dos Golfos! Se
ele detonou o helicóptero que iria me salvar, o que proíbe ele de explodir meus
barcos de luxo? - Anderson sabia que tudo o que Guilherme estava falando era
verdade. Talvez estivessem procurando por alguém que não estava mais vivo.
Anderson e Guilherme voltaram ao tanque de guerra. Anderson estava muito
desiludido. Se surpreenderam quando viram que o carro de combate não tinha um
zumbi sequer em volta. Entraram no grande meio de transporte que iria detonar com
as muralhas que bloqueavam as estradas. Raquel e Mattheus não disseram uma
palavra quando viram que Ketlyn não tinha voltado. Anderson sentou no banco,
ligou o tanque e começou a sair dali. Começou a chorar. Talvez estivesse
deixando Ketlyn para trás. Mas Guilherme estava certo. Se George descobrisse
que estavam planejando fugir com os barcos de luxo do empresário, iria tentar
estragar o plano. Limpou as lágrimas e acelerou o tanque. Estavam indo em
direção ao Farol dos Golfos. Estavam indo em direção a liberdade.
CONTINUA...