-Indústrias Ângar, Wingstonn, 23/10/2015, 23h58min-
Guilherme tremia de raiva. Sabia o quão feliz estava, pois iria escapar daquela
cidade infestada de zumbis. Agora, teria de se humilhar. Começou a tirar as
madeiras que havia usado para bloquear a passagem dos outros sobreviventes.
Começou a descer as escadas, a fumaça que havia sido liberada do dispositivo já
estava sumindo. Guilherme viu que todos estavam desmaiados.
- Espero que esta cambada de inúteis acorde logo. Não tenho todo o tempo do
mundo para pedir desculpas e fingir que estou arrependido.
Passaram-se uns dez minutos. Mattheus foi o primeiro a acordar. Quando olhou
para Guilherme, que estava encostado nas escadas que iam ao heliporto, gritou
imediatamente "traidor". Os outros foram voltando ao normal aos
poucos. Mattheus estava nervoso.
- Ei, o que você ainda faz aqui? O helicóptero não esperou você tempo
suficiente? - disse Anderson, que andou em direção a Guilherme, e sem dar
chances de ele responder, deu um murro no rosto do empresário, fazendo-o cair
no chão. - Isto é para você ver como é horrível a sensação de ser traído. Você
é uma pessoa mesquinha. Tenho nojo e pena de você. - Anderson deu um chute no
estômago de Guilherme.
- Acalme-se, Anderson! Não adianta usar a violência! Deus gosta que as pessoas
sejam justas, e Ele não gosta do modo como você está o tratando! - Raquel
correu até Anderson, e segurou seu braço.
- Deus não está sendo justo conosco! Ele tirou tudo o que era de mais precioso
para mim! Minha esposa, meus filhos, minha vida! E você vem me dizer o que é
justo? Engula sua língua, Raquel! - Anderson gritou com muita raiva para a
beata, que largou seu braço no mesmo instante, e foi para perto de Mattheus,
enquanto fazia o sinal do Espírito Santo. Ketlyn percebeu que Anderson estava
alterado. Ele nunca havia dito que tinha esposa e filhos antes dos desastres.
- Desculpe, pessoal. Deixem-me explicar o que aconteceu! - Guilherme falava
enquanto se levantava. Cuspiu uma boa quantidade de sangue que estava em sua
boca. Anderson foi para perto de Ketlyn. Todos estavam com um olhar de reprovação
para Guilherme. - Sei que fui egoísta em meu ato! Mas é que precisava de ajuda!
Eu não chegaria vivo até o helicóptero sem a ajuda de vocês! Eu também sabia
que meu transporte para salvar-me daqui levaria apenas a mim! Peço perdão a
todos vocês. Mas eu iria pedir para que alguém voltasse e viesse buscá-los! Eu
juro! - Guilherme conseguiu soltar algumas lágrimas de crocodilo.
- É claro que o perdoamos! Quem sou eu para não perdoar alguém que se
arrependeu do que fez?
- Cale esta sua maldita boca, irmã! - disse Estella, que estava com raiva de
Guilherme, mas estava com muito mais ódio de Raquel.
- Tudo bem, tudo bem. Você está desculpado. Sei que foi egoísta e tudo mais,
mas pelo menos conseguiu armas e munição para nós. Porém, nunca mais tente nos
enganar. Porque caso contrário, você não será perdoado nem por Deus. Nunca
mais, ouviu bem? - disse Anderson. Guilherme concordou com a cabeça.
- Mas o que fez você a não embarcar no helicóptero, Guilherme? - perguntou
Ketlyn.
- Um cara maluco apareceu do nada, com uma bazuca. Ele disparou um foguete bem
no helicóptero que iria me salvar. Ele estava com muita raiva. Acho que ele
pensou que eu iria ajudá-los, por isso destruiu minha salvação. Estranhei,
também, que na lataria do helicóptero em que ele estava tinha um símbolo que eu
nunca tinha visto, e do lado escrito "Laboratório DELTA". Eu nunca
tinha ouvido falar neste laboratório. Logo depois da explosão, ele foi
embora...
- Só pode ser George Müller. Ele não quer que a gente saia vivo de Wingstonn.
Mas é muito estranho ele ter um helicóptero dizendo o nome de outro
laboratório. Ele diz ser diretor dos Laboratórios ALFA. Algo muito estranho
está por trás de tudo isto! - disse Ketlyn, com um tom de repugnância. Anderson
concordou em tudo no que a jornalista disse.
- Ok, vamos para onde agora? Temos que sair daqui de um jeito ou de outro! -
disse Estella.
- Eu tenho uma grande ideia! Vocês já devem ter ido ao Farol dos Golfos, não é
mesmo? Aquele local turístico... - todos responderam que sim para Guilherme -
pois bem, fui eu quem mandei arrumar aquele farol. Eu sou, digamos, o
re-fundador daquele local. Lá eu deixo minhas lanchas e barcos de luxo.
Poderemos ir até lá, pegar um dos barcos, e sair de Wingstonn pelo Rio das
Antilhas. Chegaremos em Washington em poucas horas. O que acham?
- Se não for mais um plano seu em que nós lhe ajudamos e você nos deixa para
trás, por mim tudo bem. - disse Estella. Todos concordaram. Agora tinham um
novo objetivo. Chegar ao Farol dos Golfos.
A distância era longa, haviam grandes muralhas que bloqueavam a passagem e ir
pelos esgotos era algo fora de cogitação. Enquanto desceram todas as escadas
novamente, foram pensando como poderiam passar pelos grandes muros de concreto.
Anderson quebrou o silêncio.
- Eu sei como poderemos arrebentar aquela muralha e irmos com segurança para o
Farol dos Golfos. Anos atrás eu já prestei serviço militar ao Exército de
Wingstonn. Eu aprendi muita coisa lá, como até dirigir um tanque de guerra.
Poderemos ir até lá, pegar um tanque de combate e irmos em direção aos grandes
muros. É um meio de transporte lento, mas é o único que terá força o suficiente
para derrubar aqueles muros de concreto! - todos concordaram com Anderson. O
Batalhão de Exército de Wingstonn não era muito longe da empresa Ângar. A única
dificuldade que Anderson iria enfrentar era a de encontrar o cartão-chave que
ligava o tanque de guerra que iriam usar. Sem este cartão não haveria como
ligar o carro de combate. Mas procurar pelo cartão era algo que só poderiam
fazer após chegarem no Batalhão.
-Batalhão do Exército Militar, Wingstonn, 24/10/2015, 00h15min-
O caminho até o pelotão de Wingstonn foi tranquilo. Poucos zumbis atacaram o
grupo. A cada zumbi que aparecia, Raquel rezava um Pai Nosso. Jesus deveria
estar de saco cheio com a fissurada pelo catolicismo. Pelo menos todos os
outros sobreviventes já estavam. A entrada da sede do exército da cidade estava
totalmente destruída. Muitos carros estavam na frente, pegando fogo. Alguns
ainda tinham pessoas dentro, totalmente carbonizadas. O grupo entrou
silenciosamente na sede. Ketlyn e Anderson iam um pouco mais atrás.
- Por que nunca havia dito que você tinha perdido sua família para estas
criaturas malditas? - perguntou Ketlyn.
- É algo meu. Prefiro guardar para mim. Desculpe, mas não estou preparado para
compartilhar com alguém minha dor.
- Você que sabe. Só quero ajudar. Quando precisar de um ombro amigo, estarei
aqui. Ok? - Ketlyn sorriu para Anderson, e logo em seguida deu um beijo em seu
rosto. Anderson devolveu o sorriso.
- Meu Deus! É melhor ficarmos em silêncio! - Guilherme estava na frente do
grupo, e fez todos pararem. Uma multidão de zumbis, a maioria com fardas de
soldados, andavam pela pátio do exército. Era visível que muitos estavam perto
dos tanques de guerra.
- Como iremos chegar até um dos tanques? Olhem quantos zumbis têm aqui! -
Estella estava apavorada.
- Vamos ter que correr. Não existe outro caminho a não ser este. Estella, acho
melhor você esperar por aqui a gente. Você não vai conseguir correr tão rápido.
Você e Mattheus devem ficar aqui. Ketlyn, você quer ficar aqui também? -
perguntou Anderson.
- Nem pensar, eu vou junto! Sei que não consigo usar uma arma, mas sou rápida.
Além disso, eu posso ir na frente, para chamar a atenção dos zumbis. Enquanto
isso, vocês devem procurar o cartão-chave que liga o tanque. Eu dou a volta
pelo pátio e encontro vocês aqui. Pode ser? - Anderson concordou com a ideia de
Ketlyn.
- Raquel, você vai junto com eles para encontrar a chave do tanque? - perguntou
Estella. Estava preocupada com a irmã.
- É claro que vou! Não vou ter paciência em esperá-los ao lado de uma vadia. -
Raquel foi ríspida com Estella.
- Então, todos preparados? Mattheus e Estella, não saiam daí, ok? Ketlyn, se
cuida! Guilherme e Raquel, logo depois que os zumbis se dispersarem, vamos a um
dos tanques de guerra. Talvez tenhamos sorte em achar um cartão dentro do
próprio tanque. - todos concordaram. Ketlyn deu um suspiro e saiu correndo em
disparada. Era uma ótima atleta. Em poucos instantes os zumbis já corriam atrás
da jornalista. Anderson, Guilherme e Raquel começaram a correr em direção aos
tanques de guerra.
Apreensão era uma palavra que descrevia muito bem a sensação do que todos
estavam sentindo. O medo era o maior inimigo do grupo. Raquel ficou um pouco
mais para trás de Guilherme. Ela estava exausta. Deu mais alguns passos e
acabou tropeçando. Caiu de joelhos no chão. Estella viu tudo de longe. Dois
zumbis estavam chegando perto de Raquel. Ela abriu os braços.
- Deus, pode me levar! Eu aceito este destino que o Senhor quer me oferecer! -
Estella começou a correr desesperadamente para salvar a irmã. Pegou uma pistola
que havia conseguido na sala de segurança da empresa de Guilherme. Mattheus
gritou para Estella não correr. Sua perna não iria aguentar. Os disparos de
Estella acertaram a perna dos dois zumbis que estavam se aproximando de Raquel,
fazendo-os cair. Chegou perto da irmã e a abraçou.
- Raquel, nunca mais faça isto! Eu te amo, mesmo que você me odeie! Não quero
te perder! - disse Estella. Raquel bateu nos braços da irmã, para sair do
abraço que recebera.
- Não me encoste, sua vadia! Não quero que Jesus pense que seus atos me
corrompem! Prefiro morrer do que ter uma irmã como você! - logo depois que
Raquel disse aquelas atrocidades para a ex-prostituta, empurrou-a, fazendo cair
perto de um dos zumbis que ela tinha atirado. O zumbi não perdeu a chance, e
mordeu o pescoço de Estella no mesmo momento em que ela caiu. Raquel ficou
pasma. Estava horrorizada com o que tinha feito. Anderson entrou com Guilherme
no tanque de guerra, e não perceberam que Raquel não estava com eles. Mattheus
correu para perto de Raquel. Estella empurrou a cabeça do zumbi para o outro
lado, conseguindo liberar-se de outra mordida. Raquel pegou a pistola que
estava na mão de Estella. Olhou para ela. - Me perdoe, irmã! Deus nunca irá me
perdoar com o que fiz com você! É melhor eu acabar com seu sofrimento desde já!
- Raquel levantou a arma e apontou para a cabeça de Estella, que olhou para ela
com tristeza. O tiro foi disparado. Estella estava morta, com um tiro certeiro
na testa.
- Você matou sua própria irmã! Você nem sabia manusear uma arma! Como você... -
disse Mattheus, que tremia de nervosismo.
- Eu sei, eu sei! Cometi um grande erro! Meu Deus, me castigue! Por favor!
- Vamos correr para o tanque de guerra! Não há mais nada que você possa fazer!
- gritou Mattheus. Raquel concordou com o garoto e foram em direção ao tanque
em que Anderson e Guilherme estavam. Uma lágrima caiu do rosto de Estella, que
virou banquete dos zumbis que estavam perto dela.
- Onde você estava, Raquel? Eu já estava quase indo atrás de você. É que
encontramos o cartão-chave, ele estava aqui dentro mesmo. Mas tinham dois
soldados zumbis aqui, e nos atrapalharam um pouco. Mattheus? Por que você está
aqui? Cadê a Estella? - Anderson percebeu o rosto triste dos dois. Percebeu que
algo tinha acontecido.
- Estella está morta... foi tudo culpa minha! Tudo! - Raquel desabou em choro.
Anderson abrigou os dois no tanque.
- Fiquem calmos! Vou ligar o tanque para sairmos daqui. Meus pêsames, Raquel. -
disse Anderson, enquanto ia em direção a cabine do tanque. Começaram a sair do
pátio do exército. O barulho do tanque era enorme, muitos zumbis apareceram,
mas as rodas trituravam as criaturas, um a um. Guilherme estava sentado perto
de Mattheus. Raquel não parava de chorar e rezar. Chegaram até a entrada do
pelotão e Anderson disparou uma grande bomba nos carros que bloqueavam a
passagem. O estrondo foi muito alto. - Com esta explosão, Ketlyn já deve ter
percebido que estamos a sua espera.
Passaram-se exatos quinze minutos e Ketlyn ainda não havia retornado para a
entrada do exército. Anderson já estava muito preocupado. Subiu umas escadinhas
que tinham dentro do tanque e abriu uma espécie de porta. Olhou para fora e viu
centenas de zumbis vindo em direção ao tanque. Muitos já estavam ao redor do
carro de combate. Anderson começou a gritar por Ketlyn, mas não houve um sinal
dela. Anderson realmente estava preocupado. A jornalista poderia estar em
apuros e ele tinha que ir ajudá-la. Pensou até no pior: talvez já fosse tarde
demais.
CONTINUA...