-Bar
dos Honnygans (Vilarejo Sunshine), Washington, 26/10/2015, 10h12min-
A noite tinha sido excelente, para Anderson e Ketlyn. Pareciam que eles tinham
uma conexão muito mais forte do que apenas para duas pessoas que haviam se
conhecido a poucos dias. Eles já tinham, entrei si, um amor inexplicável. A
manhã estava bela, o raio de sol, nos olhos de Ketlyn, fez acordá-la de
imediato. Levantou-se dos braços de Anderson, pois estavam deitados sobre
alguns papelões no chão. Colocou seu sutiã, sua blusa e sua calça jeans escura.
Fechou-a com o zíper e olhou para Anderson, que começara a abrir os olhos.
- Bom dia, dorminhoco! Estava pensando em o que eu poderia fazer para nosso
primeiro café da manhã como um verdadeiro casal. - disse Ketlyn, enquanto foi
para trás dos balcões do bar, revirando tudo, a procura de um alimento matinal.
- Não precisa fazer nada, Ketlyn. Estou sem fome. Você é a razão da minha fome
estar saciada. - os dois riram. Ketlyn foi para perto de Anderson, que a puxou
para seu colo e a beijou. Os dois estavam muito felizes.
- E então? Qual é o plano? - perguntou Ketlyn, sem tirar os olhos de Anderson.
- Precisamos encontrar algum meio de transporte para sairmos desta vila. Temos
pouca munição, mas dá para o gasto. Acho que, depois de encontrarmos um lugar
realmente bom e seguro, devemos nos estabelecer e cuidar de nós, de nossa vida.
A vingança contra George é algo banal. Sei que eles são mais poderosos e que
caso batamos de frente com ele novamente, podemos nos dar mal. - disse
Anderson, com a cabeça cabisbaixa.
- Eu não concordo com você. Primeiro, acho que nunca mais veremos George. Você
esqueceu que ele foi mordido por um zumbi, horas atrás? Neste momento, ele já
deve ser igual a um desses monstros famintos, andando pela rua. E segundo,
mesmo que ele ainda estivesse atrás de nós, acho que você não deveria tentar de
acertar as contas com ele. Eu iria e vou te ajudar, caso mude de ideia. -
Anderson ficou surpreso com a opinião da namorada. Ele não tinha esquecido de
que George havia sido mordido, mas também não tinha esquecido qual era o porquê
de sua raiva por George e porque desejava vingança.
- Por que você acha que eu devo tentar ir atrás de George, amor?
- Eu não disse isso. Apenas quis insinuar que, caso um dia vocês se encontrem
novamente, que acho pouquíssimo provável, eu lhe daria o maior apoio para
brigar com ele. Foi ele quem matou sua família, não foi? Eu nunca o perdoaria.
- disse Ketlyn.
- Não, não foi ele. Fui eu quem matei minha esposa e meus dois filhos. Fui EU!
- Anderson alterou o tom de voz. Ainda não estava conformado com o que havia
feito com sua família.
- Eu entendo você, Anderson. Mas, diretamente ou indiretamente, quem matou sua
mulher e seus filhos foi George. Foi ele quem iniciou este vírus. Os
Laboratórios ALFA devem ser desmascarados! Foi a equipe deles quem fizeram o
mundo tornar-se em caos! - Ketlyn tinha força em suas palavras.
- O pior de tudo, Ketlyn, é que quanto mais o tempo passa, mais eu acho que os
ALFA são inocentes. Eu acho que eles não são os culpados pelo vírus. Tudo não
passa de alguém querendo incriminar as pessoas que fizeram o sucesso dos
remédios ALFA ser tão grande.
- E por que você acha isso, Anderson?
- Simplesmente porque George estava em um helicóptero com o logotipo
"DELTA", escrito na lataria do helicóptero em que ele usou para
destruir o único meio de salvação do Guilherme, lembra? E olhe, esta maleta que
você pegou no carro deles! Também está escrito DELTA, no seu verso. - Ketlyn
ficou pasma ao perceber que algo tão óbvio passou despercebido para ela, que
era uma ótima jornalista.
- Você deve ter razão! Tudo se encaixa! O plano dele pode ser que, colocando a
culpa na empresa de laboratórios ALFA no caos zumbi, a empresa DELTA seja a
heroína! Talvez eles saibam a cura deste vírus zumbi! - disse Ketlyn, surpresa
com suas novas opiniões.
- Este é meu medo. Acho que George não tenha virado zumbi. Se ele é, realmente,
de outro laboratório, ele deve saber a cura. Neste momento, eles devem estar
nos procurando, ele e aquela mulher estranha. - disse Anderson, com um sorriso.
- Safado! Você quis dizer, indiretamente, que ela é bonita! Ou melhor, que
aquela parceira do George é linda? Não vou mais te perdoar! - Ketlyn também deu
um sorriso, mas fingiu estar magoada, virando o rosto para o lado.
- Me desculpa se eu lhe der um beijinho? No rosto? - Anderson começou a
beijá-la, aos poucos.
- No rosto? Só lhe perdoo se for na boca e em vários outros lugares! - Ketlyn
começou a beijá-lo sem parar. O casal parecia dois adolescentes. A paixão
deixava qualquer um bobo. Bobo de amor.
-Bar dos Honnygans (Vilarejo Sunshine), Washington, 26/10/2015, 15h36min-
Anderson já tinha aprontado tudo. Encontrara uma mochila em uma casa abandonada
e a encheu de roupas, também encontradas na casa. Ketlyn pegou remédios e
comida. Encheram duas mochilas de acampamento. Agora só faltava encontrarem um
carro, para poderem começar uma nova vida sozinhos e longe daquele vilarejo
sombrio. Saíram do bar, se depararam com alguns zumbis, mas nada muito
complicado de escapar. Vários carros estavam pela estrada, mas nenhum tinha
combustível suficiente.
Andaram duas horas sob um sol escaldante. A água já estava quase acabando em
suas garrafas e as mochilas ainda estavam pesadas. Mas algo fez Ketlyn parar de
andar. Seu olhar surpreso demonstrava que ela tinha visto algo realmente
importante. Anderson também avistou o que tinha deixado Ketlyn feliz: uma
espécie de mercado, no meio do nada, com uma moto estacionada em frente.
Chegaram mais perto e perceberam que a chave estava na ignição.
- O dono dela deve estar aí dentro do mercado. - sussurrou Anderson.
- E você está pensando em algo, amor? Acha que devemos chamá-lo para pedir
ajuda? - Ketlyn também falou sussurrando. Anderson tirou a mochila das costas,
retirou algumas roupas e comida. Deixou apenas o necessário. - o quê você está
fazendo, Anderson? - Ketlyn estava curiosa. Anderson pediu a mochila de Ketlyn
e falou para ela ficar quieta, deixando-a sem resposta. Retirou a maioria das
roupas e colocou tudo em uma só mochila. Retirou a maleta preta e entregou nas
mãos de Ketlyn. Anderson subiu na moto.
- Você vai ficar aí, esperando o dono da moto aparecer? Sobe logo, e coloca a
mochila nas costas. Se levarmos as duas cheias, a moto ficará muito pesada. E
fique com a maleta preta em mãos! - Anderson sussurrou, um pouco mais alto do
que antes.
- Tá louco? Vamos roubar a moto dele? Você não está pensando nisto, certo? -
Ketlyn gritou. Anderson percebeu que alguém movimentou-se dentro do mercadinho.
- Sobe logo! - Anderson puxou o braço de Ketlyn, fazendo-a sentar rapidamente
na moto. Enquanto Anderson e sua namorada saíam em disparada, um homem saiu do
mercado, com uma espingarda em mãos. Alguns sons de disparos e muitos palavrões
foram ouvidos.
- Você só pode ser maluco, Anderson! - gritou Ketlyn, que não gostou nadinha da
atitude do namorado. Anderson ficou em silêncio. Agora só precisavam encontrar
um bom lugar para se estabelecerem.
-Local desconhecido, Washington, 26/10/2015, 17h39min-
Ricksonn ainda não tinha dito uma palavra sequer. O trailer já estava quase sem
gasolina, e todos estavam comentando o modo grosso de Ricksonn. Ninguém
esperava que alguém que se dizia líder de um grupo poderia fazer tal coisa.
Bater na mulher do homem que ajudou um grupo desconhecido foi algo desumano.
Carros começaram a aparecer pelo caminho, todos batidos, alguns em cima dos
outros. O trailer era grande, e a dificuldade para desviar dos obstáculos da
estrada também. Mas Ricksonn não tirara o pé do acelerador. Caetano
levantou-se. Precisava tomar uma atitude mais severa.
- Cara, pare o trailer. Não estou pedindo, estou mandando! - disse Caetano.
Ricksonn não tinha dado a mínima atenção para o pai de família. - Ricksonn!
Diminua a velocidade! Você pensa que está fazendo algo certo? Você bate em
minha mulher, se acha o líder e ainda rouba meu trailer? Pare AGORA! - Quando
Caetano gritou ainda mais, Ricksonn levantou a arma e apontou para a cabeça de
Caetano.
- Sente-se agora, filho de uma vaca. - disse Ricksonn. Mas Mattheus, que estava
perto da discussão, avistou que, na estrada, tinha alguém andando. E não era um
zumbi.
- Cuidado, Ricksonn! Tem pessoas na estrada! - gritou Mattheus. Mas já era
tarde. Ricksonn só percebeu depois que atropelou o indivíduo. O sangue explodiu
como uma bexiga de água, quando jogada no chão. Ricksonn acabou perdendo o
controle e tombou o trailer. Ninguém tinha se ferido. Mas todos começaram a
ouvir gritos desesperados de uma mulher.
- Meu filho! Não! Não pode ser! Meu filhinho! Aaaaah, como pôde aparecer aquele
trailer desgovernado? Me ajudem, gente! Precisamos salvar meu filho! - a voz
estava perturbada. Mattheus olhou pelo vidro traseiro e avistou uma mulher de
joelhos, desabando em choro, com uma pequena camiseta infantil nas mãos.
Apareceram mais dois homens e uma mulher. Um dos homens olhou para o trailer.
Sussurraram algo, saíram por uns segundos e apareceram novamente, com armas
pesadas em mãos. Mattheus se assustou na mesma hora. Agora estavam perdidos:
Ricksonn atropelou e matou uma criança, de um grupo de sobreviventes ainda
desconhecido. E, provavelmente, os dois homens iriam fazer justiça com as
próprias mãos. Talvez a morte estivesse chegando mais perto deles, e não seria
por nenhum ataque zumbi.
Continua...